Entra em vigor reserva de vagas para negros em concursos públicos federais

elesA reserva de vagas para negros no serviço público federal começou a vigorar hoje, terça-feira (10). Na última segunda-feira a lei que prevê a cota foi sancionada pela presidente Dilma Rousseff, em cerimônia no Palácio do Planalto com a presença do presidente do Senado, Renan Calheiros. A lei destina 20% das vagas nos concursos para candidatos que se declararem pretos ou pardos no ato da inscrição.

Embora beneficiados na classificação final, os concorrentes às cotas raciais terão de passar por todas as etapas de seleção e atender às mesmas exigências impostas aos demais candidatos pelo edital. A nova regra valerá por 10 anos nos concursos com mais de três vagas, para órgãos da administração pública federal, autarquias, fundações, empresas públicas e sociedades de economia mista, controladas pela União.

A aplicação da regra aos órgãos do Judiciário e do Legislativo é incerta. Algumas decisões judiciais nos estados rejeitaram a possibilidade de leis de iniciativa do Executivo criarem condições específicas para concursos dos demais poderes. No Senado, porém, Renan Calheiros já determinou a instituição da cota de 20% nos concursos e contratos de terceirização.

Diversidade

Para a presidente Dilma, a lei dá início à mudança na composição racial dos servidores da administração pública federal, para se tornar mais representativa da população brasileira. Ela disse esperar que a iniciativa sirva de exemplo para os outros poderes e empresas privadas.

– É mais uma oportunidade para mostrarmos ao mundo o respeito e o orgulho que temos pela diversidade da nossa nação.

A ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção de Igualdade Racial, Luiza Bairros, destacou o apoio do Congresso Nacional à agenda da igualdade racial e o reconhecimento formal da diversidade brasileira.

– Demonstra o quanto o Congresso está afinado com todas as demandas por mudanças sociais que nós tentamos responder por meio das políticas públicas – afirmou.

A proposta (PLC 29/2014), apresentada pelo Poder Executivo em novembro de 2013, foi aprovada pelo Senado em maio. Dilma Rousseff elogiou a rapidez na tramitação da matéria e agradeceu pela sensibilidade do Congresso na luta contra a discriminação racial com ações de política afirmativa.

Agência Senado

Ex-Superintendente do INCRA não fez titulação de áreas quilombolas e a BR-135 deve ser interditada

 incraO flagrante foi feito, por ocasião de mais uma invasão à sede do INCRA em São Luís, por quilombolas em busca de direitos. O ex-superintendente José Inácio Rodrigues, na ocasião fez mais uma das suas inúmeras promessas, nunca honradas.

Milhares de famílias de comunidades quilombolas estão revoltadas com a falta de um mínimo de responsabilidade da Superintendência do INCRA, quanto à titulação de territórios quilombolas. Apesar das inúmeras promessas feitas pelo ex-superintendente José Inácio Rodrigues e avalizadas pela Ouvidoria Agrária Nacional, as promessas continuam no papel, o que demonstra claramente o engodo do Partido dos Trabalhadores para com milhares de famílias quilombolas, muito embora a Fetaema tenha exercido cobranças sucessivas, mesmo assim nada foi concretizado.

      As comunidades de Santa Rosa dos Pretos, Santana do São Patrício, Monge Belo, Santa Maria dos Pinheiros, Burangi e inúmeras outras integrantes do município de Itapecuru-Mirim, estão entre as centenas que ainda tiveram a titulação das suas terras e correm sérios riscos de enfrentarem problemas graves. Lideranças de dezenas de comunidades já solicitaram empenho e celeridade por parte da atual superintendente do INCRA, Fátima Santana, inclusive com observação de prazo. Caso não haja resolução do problema, os quilombolas pretendem interditar a BR-135 por tempo indeterminado, colocando no local, centenas de famílias, inclusive crianças, como pressão para a garantia de seus direitos.

      Para que se tenha uma dimensão dos enormes prejuízos causados o pelo ex-superintendente, o juiz da 8ª Vara Federal do Maranhão, a comunidade quilombola conhecida como “Engole”, localizada no município de Cedral, está ameaçada dedespejo em razão da irresponsabilidade da administração passada do INCRA no Maranhão.

Outro caso bastante vergonhoso, ocorre na comunidade de Santa Maria dos Moreiras, no município de Codó, que inclusive tem merecido a defesa da Anistia Internacional. O INCRA, que poderia ter feito a desapropriação da área e a titulação das terras, sempre assumiu uma postura de defesa dos interesses de políticos, grileiros, empresários e gente ligada ao agronegócio. Na área existem muitos quilombolas sendo perseguidos e respondendo processos e impedidos até de fazerem roças para a subsistência. O problema não é maior devido a presença da Fetaema, com a sua Secretaria Agrária e assessoria jurídica.

       O interessante e que à semana passada o ex-superintendente do INCRA, José Inácio Rodrigues esteve participando de reunião com lideranças do Centro de Cultura Negra, para pedir apoio politico, uma vez que é pré-candidato a deputado estadual. Será que o pessoal da entidade sabe dos males causados a milhares de quilombolas, justamente pelo signatário que busca apoio politico?

Não há pastoral que avance sem ter a consciência da crise que vivemos

aldir

Depois da celebração da missa da família no Santuário de Nossa Senhora Aparecida, encontramos ocasal Roque e Verônica , coordenador nacional da Pastoral Familiar. Mais tarde trocamos algumas informações no hotel Rainha do Brasil. O casal me afirmou que com as equipes pastorais tem um planejamento para trabalhar em importantes projetos realistaspara avanços da Pastoral Familiar.

A 6ª Peregrinação da Família e o 4º Simpósio Nacional da Família, realizados em conjunto no Santuário de Nossa Senhora Aparecida – SP, foram bem marcantespelos aspectos religiosos, sociais, políticos e econômicos que estiveram no centro das palestras, principalmente diante da velocidade das mutações que revolucionam as vidas das famílias do Povo de Deus. Por ocasião da abertura dos dois importantes eventos, Dom Raimundo Damasceno, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e cardeal do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, destacou que a família é a fronteira da nova evangelização.

      O casal Roque Luiz Rhoden e VerônicaMelzRhoden, fez uma palestra  registrando que o Espírito Santo é a Luz da Vida e precisamos todos como Povo de Deus, abrir os nossos corações para que a Luz de Jesus Cristo venha iluminar os nossos caminhos, as nossas vidas e aumentar a fé das famílias para a construção do Reino de Deus. Eles com bastante sensibilidade registraram que não pode viver apenas com, o que nos oferecem, mas necessário se torna que tenhamos de construir interiormente uma intensa capacidade de amor, de doação e serviço dentro da sociedade, onde estão muitas famílias, mais precisamente as pobres e necessitadas, não só de pão, mas da palavra de Deus.

                    Estamos em uma sociedade em crise

A palestra da professora universitária mineira, Adélia Prado foi bem concentrada nas questões bem claras, que envolvem diariamente a família. Ela começou dizendo que a compaixão humana é uma necessidade em primeiro lugar da família. Não há tratamento específico para a família, mas para as pessoas integrantes do seu contexto. Não há pastoral que avance, se ela não tiver a consciência de que estamos vivendo em uma sociedade em crise. As nossas esperanças estão dentro dos evangelhos, em que Jesus Cristo sinaliza profundamente, amor e misericórdia.

         A professora Adélia Prado, destacou que a salvação da família passa pelo feminino com a Mãe Maria para restaurar a família, com o lavar os pés, dar os remédios e a atenção devida. Por falta de um maior compromisso nosso, estamos encaminhando muitas famílias para terapeutas, psicólogos e psiquiatras, principalmente quando entendemos de desconhecer que o casamento é o conhecimento, o serviço e o amor. Sem dor não há conhecimento e não concebo pastorais dissociadas da realidade das mutações, que causam transformações sociais e afetam com problemas graves muitas famílias, que muitas vezes não merecem a atenção solidária e fraterna do serviço pastoral.Muita realista, a professora Adélia Prado, falou sobre casos que ocorrem em conventos, em que a comunidade está sendo substituída pelos isolamentos, com cada pessoa em sua toca.

         Ao encerramento das suas palavras, a professora mineira, deixou bem claro que as pastorais devem repensar a sua missão participativa, misturando-se cada vez com as comunidades. Salvar a família é salvar pessoas, afirmou Adélia Prado.

Justiça determina ao município de São Luís cumprimento de TAC sobre transporte público

trioA promotora de justiça Lítia Cavalcanti foi autora do TAC

A partir de uma Ação de Execução de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), promovida pelo Ministério Público do Maranhão contra o Município de São Luís, a Justiça determinou prazo de 90 dias para que seja promovido o equilíbrio econômico-financeiro do Sistema de Transporte Coletivo de São Luís, com o repasse, até o dia 5 de cada mês, do prejuízo apurado pelo Sindicato das Empresas de Transporte (SET) e pela Secretaria Municipal de Trânsito e Transporte (SMTT).

O mesmo prazo foi dado para que o Município deflagre o processo licitatório para concessão das linhas do sistema de transporte urbano de passageiros de São Luís. Em 90 dias, a Prefeitura também deverá combater as fraudes pelo uso ilegal do cartão de transporte e o transporte ilegal de passageiros por veículos particulares; formular um plano de ação – em parceria com o SET – para a implementação de melhorias no sistema; e encaminhar projeto de lei à Câmara Municipal, prevendo o novo marco regulatório do transporte público.

A Ação de Execução, proposta pelos promotores de justiça Lítia Teresa Costa Cavalcanti, Carlos Augusto da Silva Oliveira, Tarcísio José Sousa Bonfim e Cláudio Rebelo Correia Alencar, baseou-se em declarações do secretário Canindé Barros, da SMTT, de que a licitação do sistema só seria realizada em 2015. No entanto, o prazo previsto em TAC assinado entre o Município e o MPMA em 10 de novembro de 2011, e para o qual foram feitos três aditivos de prazo, se encerraria em 30 de julho deste ano.

A decisão, assinada pelo juiz Edilson Caridade Ribeiro, respondendo 4ª Vara da Fazenda Pública, também prevê prazo de até 15 dias para que a Prefeitura de São Luís pague R$ 7.425.000,00 ao SET, referentes ao prejuízo do mês de maio com o sistema de transporte coletivo. O valor foi apurado pela própria SMTT.

Em caso de descumprimento de qualquer das decisões, a Justiça determinou multa diária de R$ 20 mil.

 (CCOM-MPMA)

ABI Associação Brasileira de Imprensa contaminada pelo pensamento único

marioMário Augusto Jakobskind e a atual crise dentro da Associação Brasileira de Imprensa

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que no mês de abril completou 106 anos, atravessa um momento grave, talvez um dos mais graves de sua história. A crise atual se arrasta desde o ano passado e foi judicializada por um grupo de associados da entidade.

Em abril do ano passado foi realizada uma eleição em que saiu vitoriosa a chapa liderada pelo presidente da entidade, jornalista Maurício Azêdo, morto em 25 de outubro de 2013. Foi uma eleição das mais concorridas dos últimos anos.

Um grupo de associados, liderados pelo jornalista Domingos Meirelles, diretor financeiro na gestão de 2010-2013, que não conseguiu formar chapa para concorrer, decidiu ingressar na justiça para contestar o resultado.

Falso argumento

O argumento – falso, por sinal – foi de que houve irregularidades e até fraude na eleição tendo sido os opositores de Azêdo prejudicados. Depois de marchas e contramarchas, produtos de decisões judiciais que se arrastaram por quase um ano e que na prática precipitaram a morte do presidente da ABI, que se encontrava com a saúde fragilizada, a Justiça acabou dando ganho de causa ao grupo opositor. Foi então anulado o resultado do último pleito.

A ABI continuou em clima de alta tensão. O Conselho Deliberativo, órgão máximo da entidade, com base em interpretação jurídica, decidiu que com a morte de Azêdo ocorreu uma vacância do cargo, tendo por isso o Conselho o direito de indicar o presidente interino até a realização das eleições previstas para abril, conforme estabelece o estatuto. Foi indicado para o exercício do cargo o jornalista FichelDavitChargel.

Mais uma vez houve uma consulta à Justiça por parte dos que não se conformaram com a decisão coletiva do Conselho. Mais uma vez, a Justiça decidiu favoravelmente ao grupo de opositores liderados por Meirelles e ordenou que a diretoria da gestão 2010-2013 deveria ser reconduzida e sob a presidência do jornalista Tarcísio Holanda. Decisão da Justiça tem de ser cumprida, mas não há impedimento algum de ser criticada.

Falta de liberdade de expressão

Crise na ABI apressou a morte de Maurício Azedo

crise

O autor deste artigo, que além de conselheiro da ABI preside a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da entidade, criticou a decisão judicial, inicialmente em mensagem a alguns conselheiros. Apresentou, portanto, uma opinião e assinalou a falta de legitimidade da diretoria empossada por decisão da justiça.Recebeu por isso uma advertência firmada pelo diretor administrativo empossado pela Justiça, Orpheu Sales. Voltou a fazer o mesmo tipo de crítica em uma reunião do Conselho Deliberativo, afirmando inclusive que não reconhecia a advertência adotada em uma reunião da diretoria em que até o presente não foi apresentada a ata.

Decisão questionávelNovamente punido por expressar uma opinião, o conselheiro foi suspenso por 60 dias, recebendo o comunicado por meio de uma carta firmada pelo mesmo diretor administrativo, Orpheu Salles. Na comunicação o diretor informou que a decisão foi adotada “por unanimidade” dos presentes em uma reunião da diretoria sob a alegação, absolutamente estapafúrdia, segundo a qual o conselheiro “se desmandou em termos incompatíveis com o decoro contra o presidente Tarcísio Holanda e o diretor administrativo Orpheu Santos Salles”. Da mesma forma que na nota de advertência, não foi divulgada a ata da reunião da diretoria que decidiu a suspensão, um documento obrigatório, ainda mais por se tratar de um assunto altamente polêmico.

Mas em reunião realizada dia 27 de maio, o Conselho Deliberativo da ABI decidiu revogar a decisão arbitrária, demonstrando na prática que a punição não tinha o menor cabimento. Na verdade serviu apenas para confirmar o caráter autoritário da atual diretoria, que nem ata apresentou sobre a decisão de punir o Conselheiro, também presidente da Comissão da ABI de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos.

Uma decisão como tinha sido adotada pelo diretor administrativo Orpheu Santos Salles não atingiu apenas um conselheiro ou o presidente da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos, mas sim a liberdade de expressão. Mas o Conselho Deliberativo corrigiu o grave erro em tempo.

Agora, o que deve ser exigido é a realização de eleições, adiadas desde o mês de abril. O Conselho Deliberativo decidiu por maioria dos seus membros a realização da eleição e da assembleia geral da ABI nos dias 11 e 12 de julho, A diretoria não quer respeitar a data decidida. Desta forma a ABI decidiria finalmente quem será o presidente, os integrantes da diretoria e os conselheiros. Uma eleição, em função da crise e do clima de tensão, a ser fiscalizada por outras entidades, entre as quais a Ordem dos Advogados do Brasil.

Em suma, é deveras lamentável, vale sempre repetir, que uma entidade como a ABI esteja sendo ocupada por diretores que não respeitam a liberdade de expressão e substituem o debate de ideias pela punição sumária.

Mário Augusto JakobskindJornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil); preside a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI. Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla (no prelo).

 

Denuncias de negligências e irregularidades no Hospital da Criança

A 2ª Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde realizou na terça-feira, 3, inspeção no Hospital Dr. Odorico Amaral de Mattos, o Hospital da Criança, no bairro da Alemanha, e recebeu denúncias de seis mães sobre irregularidades nos procedimentos da Unidade de Cuidados Intermediários (UCI), contaminação dos pacientes e falhas nas incubadoras e respiradores.

Na fiscalização, o Ministério Público também constatou a falta de remédios, alimentos, material de limpeza e insumos para o tratamento dos pacientes e manutenção do hospital.

De acordo com Jeane Sousa, mãe de um menino que tem um mês e meio de idade, internado na UCI há 15 dias, a falta de limpeza da unidade aliada à ausência de controle de acesso são responsáveis pelo agravamento do quadro de saúde dos pacientes. “Meu filho chegou com pneumonia e agora foi contaminado por uma bactéria. A contaminação aconteceu aqui dentro”.

Ela denunciou que o filho sofreu duas paradas cardiorespiratórias e o alarme do equipamento não funcionou. Em outra ocasião, um técnico do laboratório entrou na UCI sem lavar as mãos ou adotar qualquer procedimento de assepsia e mesmo assim colheu sangue da criança sem usar luvas.

A filha de Franciele Silva, que tem apenas um mês de vida, também foi vítima da mesma imperícia do técnico de laboratório. Ela denunciou, ainda, que as profissionais de enfermagem usam o celular dentro da unidade. “Minha filha chegou com pneumonia. Aqui, ela já teve uma parada cardíaca e pegou uma bactéria”.

RISCO DE MORTE

O risco iminente de morte das crianças internadas na UCI também foi confirmado por EudilaFroz Silva. No dia 14 de maio, a filha dela, de três anos, teve uma parada cardiorespiratória, e o alarme não funcionou. “Os monitores frequentemente ficam desconectados por problemas no aparelho”.

“A situação é gravíssima. O quadro nessa unidade é caótico e ultrapassa qualquer limite de aceitação. Além da falta de higiene, os alarmes dos respiradores não funcionam e as incubadoras estão aquecendo de forma descontrolada”, afirmou Glória Mafra, promotora de Defesa da Saúde. A representante do MPMA explica que a precariedade dos equipamentos expõe as crianças ao risco iminente de óbito e, nesse caso, o gestor público é o responsável pelo quadro.

Mafra questiona a falta de prioridade das crianças e o fato de a saúde ser relegada a segundo plano pela Prefeitura de São Luís. “As crianças correm o risco de serem queimadas até a morte nas incubadoras, e o Município de São Luís tem se recusado a cumprir a obrigação legal de assegurar a integridade desses pacientes”.

Durante a inspeção, a titular da 2ª Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde flagrou a entrada de dois eletricistas e um funcionário do almoxarifado na UCI sem qualquer controle de segurança ou higiene. A falta de um espaço adequado para manuseio da medicação e a falta d’água agrava, ainda mais, o risco de infecção hospitalar.

 IRREGULARIDADES

 Ao realizar a inspeção, o MPMA constatou que faltam remédios e insumos na farmácia hospitalar, incluindo antibióticos. Alguns medicamentos não são entregues pela Secretaria Municipal de Saúde há dois meses, expondo as crianças à interrupção dos tratamentos.

Um paciente de 12 anos, internado no Hospital da Criança, não recebeu o tratamento adequado para a meningite pela falta do medicamento Rocefin. A aplicação do remédio foi realizada, posteriormente, porque uma das médicas conseguiu uma amostra grátis. “Existe uma proibição legal de utilizar amostras grátis nessa situação”, esclareceu Glória Mafra. Após a intervenção do MPMA, o paciente foi transferido para o Hospital Juvêncio Matos na última segunda, dia 3.

No lactário, unidade para higienização e preparações lácteas para alimentação das crianças, a situação também é grave. Além da sujeira, o espaço tem vazamentos hidráulicos, paredes mofadas e o basculante dá acesso a um banheiro. “A preparação das fórmulas e do leite das crianças menores é feita em um espaço sujo, insalubre e visivelmente perigoso”, questiona Glória Mafra.

A esterilização dos materiais também não é realizada porque o Hospital da Criança não possui o aparelho autoclave. Na lavanderia e no setor de nutrição, foi detectado mais risco de contaminação e proliferação de infecção hospitalar, pois os funcionários trabalham sem equipamentos de proteção individual. “Sem o uso dos equipamentos, há um risco muito alto de contaminação do material lavado e da comida, ampliando a possibilidade de infecção hospitalar dos pacientes e a exposição dos trabalhadores”.

A promotora de Defesa da Saúde também descobriu o desabastecimento completo dos itens de limpeza. Além da falta d’água, o hospital não tem esponja, sacos plásticos, sabão, detergente e todo o material necessário para a limpeza do prédio.

PROVIDÊNCIAS

Diante das irregularidades, a 2ª Promotoria de Defesa da Saúde solicitou à direção do Hospital da Criança, na última quinta-feira, 5, a lista dos medicamentos e materiais que estão em falta. Também foi solicitada a avaliação e revisão em todas as incubadoras e respiradores da UCI.

No mesmo sentido, o MPMA expediu, na sexta-feira, 6, Notificação Recomendatória de Cárater Urgente para a secretária de Saúde do Município de São Luís, Helena Duailibe, solicitando a regularização das situações mais urgentes no hospital no prazo máximo de 48 horas.

 (CCOM-MPMA)

“Inicia-se um novo ciclo de lutas da classe trabalhadora brasileira?” Entrevista especial com Marcelo Badaró Mattos

“Há quantos anos não ouvimos falar a sério da ideia de uma greve geral no Brasil?”, questiona historiador.

 

Apesar de ainda não terem sido divulgados os dados oficiais sobre o número de greves ocorridas em 2013, a estimativa é de mais de 900 paralisações trabalhistas no Brasil nesse período, considerando que em 2012 o índice de greves foi o mais alto desde 1996, o que demonstra que elas têm sido mais frequentes, inclusive antes das jornadas de junho.

Entretanto, “há diferentes significados nas greves que estão ocorrendo no último período”, assinala Marcelo Badaró Mattos, na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail. Na avaliação dele, as greves podem ser compreendidas a partir de dois grandes movimentos: “de um lado, sindicatos que se mantiveram ativos e combativos ao longo das duas últimas décadas sentiram um momento favorável para as mobilizações grevistas após as ‘jornadas de junho’ de 2013 e no contexto pré-Copa do Mundo e, (…) por outro lado, estão acontecendo também muitas greves de categorias de trabalhadores que não se veem representadas por suas entidades sindicais, há muito tempo controladas por burocratas a serviço dos patrões e dos governos. É o caso das greves recentes de rodoviários, trabalhadores da limpeza urbana e, em muitos casos, de trabalhadores da construção civil”.

Com base em dados referentes ao ano de 2011, divulgados pelo IBGE, o pesquisador destaca que “82% dos empregados no Brasil recebem até três salários mínimos”, sendo que, destes, “30% recebem até um salário mínimo”. Apesar de o número de empregados sem carteira assinada ter diminuído nos últimos anos, “calcula-se entre 8 e 10 milhões o número de trabalhadores terceirizados”. “Nestes quase 12 anos de gestões petistas do governo federal, tanto nas fases de crescimento mais significativo no segundo mandato de Lula da Silva quanto nos períodos de quase estagnação do crescimento econômico, como hoje em dia, a maior parte dos empregos gerados no Brasil foi ancorada em baixo salário”, constata. E dispara: “Os reajustes do salário mínimo mal e mal o recolocaram no patamar dos anos 1980, que já era o ponto mais baixo da sua curva desde o final dos anos 1950”.

Na entrevista a seguir, Mattos também comenta as propostas das esquerdas em relação às questões trabalhistas, eleitorais e a reduzida capacidade de influência nas manifestações de junho. “Hoje, não apenas o desempenho eleitoral dessas forças é muito pouco significativo, como sua inserção nos movimentos sociais de base trabalhadora é diminuta, sendo reduzida sua capacidade de influenciá-los, como ficou evidente no ano passado, em meio às“jornadas de junho”, quando a esquerda organizada não conseguiu exercer um papel protagônico nas manifestações de massa, abrindo-se, inclusive, em meio aos manifestantes, durante um certo período, o espaço para um rechaço, de matriz conservadora, aos partidos de forma geral”. Por outro lado, pondera, “seria, entretanto, injusto não reconhecer que as organizações de esquerda vêm cumprindo um papel importante, com todas as suas dificuldades, ao aglutinar forças na resistência aos ataques do capital às conquistas da classe trabalhadora”.

Marcelo Badaró Mattos é graduado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, mestre e doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense – UFF, onde leciona atualmente. É autor de, entre outros,Trabalhadores e sindicatos no Brasil (São Paulo: Expressão Popular)O sindicalismo brasileiro após 1930 (Rio de Janeiro: Zahar) e Trabalhadores em greve, polícia em guarda (Rio de Janeiro: Bom TextConfira a entrevista.IHU On-Line – O que as greves que têm ocorrido recentemente significam, especialmente pelo fato de as categorias estarem se organizando sem a participação e apoio dos sindicatos?

Marcelo Badaró Mattos – Fenômenos sociais complexos, como os ciclos de greves e mobilizações da classe trabalhadora, nunca podem ser explicados por um único fator.

Portanto, há diferentes significados nas greves que estão ocorrendo no último período. De um lado, sindicatos que se mantiveram ativos e combativos ao longo das duas últimas décadas sentiram um momento favorável para as mobilizações grevistas após as “jornadas de junho” de 2013 e no contexto pré-Copa do Mundo.

Em grande medida porque, quando as manifestações multitudinárias do ano passado levantaram bandeiras como“Da Copa eu abro mão, quero dinheiro para saúde e educação”, ecoaram os últimos vinte anos de lutas dos trabalhadores do serviço público nessas áreas, que reivindicaram não apenas melhores salários e condições de trabalho para si, mas também defenderam saúde e educação pública de qualidade como direito de todos, em tempos de privatização e péssimas condições de oferta desses direitos fundamentais. Daí porque greves no serviço público de forma geral e na educação em particular estejam acontecendo em grande número, dirigidas muitas vezes por sindicatos combativos.

Por outro lado, e acho que esse foi o ponto da pergunta, estão acontecendo também muitas greves de categorias de trabalhadores que não se veem representadas por suas entidades sindicais, há muito tempo controladas por burocratas a serviço dos patrões e dos governos.

É o caso das greves recentes de rodoviários, trabalhadores da limpeza urbana e, em muitos casos, de trabalhadores da construção civil. Tais situações reforçam a tese de que a burocratização é uma decorrência da estrutura sindical brasileira, que é em grande medida a mesma estrutura oficial (dependente do “registro” noMinistério do Trabalho, baseada na unicidade sindical — sindicato único por categoria e região — e ancorada na contribuição compulsória de todos(as) os(as) trabalhadores(as) para o sistema) criada nos anos 1930 e apenas levemente reformada em 1988 e depois. De qualquer forma, a existência de polos combativos no movimento sindical indica que esse processo não é inevitável.

 
“Nas relações capital-trabalho no Brasil das últimas décadas, as forças do trabalho perderam muito”

 

 

IHU On-Line – A que o senhor atribui o fato de as greves terem quase dobrado de 2010 para 2013, tendo ocorrido 446 greves em 2010 e mais de 900 em 2013? Os protestos por conta da Copa do Mundo ajudaram?

Marcelo Badaró Mattos – O número de greves no Brasil vem crescendo, mesmo antes das “jornadas de junho” de 2013. O ano de 2012 teve o maior número de greves desde 1996, segundo os dados do Dieese. Não há ainda levantamentos divulgados para 2013, mas tudo indica que a tendência de elevação no número de greves se manteve.

Algumas das greves de 2012, como a dos trabalhadores da educação nas instituições federais de ensino (que foram seguidas por outras categorias de servidores públicos federais) podem ser vistas como impulsionadoras de reivindicações que reemergiram nas ruas nas vozes dos manifestantes de 2013. Por outro lado, como eu mencionei, as jornadas de junho demonstraram um elevado nível de descontentamento e uma pauta que, embora difusa, possui um nítido sentido de classe (saúde, educação e transporte público de qualidade, além de protesto contra a violência policial, cotidianamente letal nas favelas e periferias da grande cidade). Isso reforçou a disposição de diversos grupos profissionais de ir à luta, empolgados com a nova conjuntura, que não apenas fizeram greves, mas também foram para as ruas, dando maior visibilidade e buscando apoio para suas causas. Não se deve esquecer, porém, que as greves decorrem também de um acúmulo de descontentamentos relativos às condições de trabalho e aos salários. Por um lado, a relativa diminuição do nível de desemprego atenua um pouco a insegurança em relação ao confronto grevista, por outro lado, os baixos salários e condições adversas de trabalho (vide o crescimento dos acidentes de trabalho e as autuações por trabalho análogo à escravidão em canteiros das grandes obras do PAC e dos megaeventos, por exemplo) são fatores objetivos a impulsionar um maior volume de greves.

 

IHU On-Line – Quais são as principais reivindicações das categorias nessas greves?

Marcelo Badaró Mattos – As principais reivindicações são reajustes salariais e melhoria das condições de trabalho — o que envolve o fim da dupla função para os rodoviários (dirigir e cobrar passagens ao mesmo tempo), a melhoria da alimentação e alojamento em canteiros de obras da construção civil, valores maiores pagos para a alimentação dos garis, para ficar em alguns exemplos. No caso dos servidores públicos, predominam, além das demandas salariais, a reformulação dos planos de carreira (depois de anos de desmanche das carreiras, com a introdução de gratificações diferenciadas e perda da isonomia entre aposentados, ativos mais antigos e recém-ingressos), além da defesa de políticas públicas que atendam aos interesses da maioria da população (como na luta contra o fechamento de escolas, o crescimento do número de alunos por turma, o encolhimento dos turnos e a não garantia do tempo de preparação de aulas por parte dos profissionais da educação).

IHU On-Line – A que atribuiu os baixos salários, apesar do aumento do salário mínimo, e a falta de avanços dos direitos trabalhistas, considerando especialmente a terceirização no Brasil?

Marcelo Badaró Mattos – A lógica da acumulação capitalista explica esses fenômenos, pois as empresas e empresários que personificam o capital, só à custa de muita luta organizada por parte da classe trabalhadora reajustam salários, aceitam ampliar direitos e garantem condições de trabalho minimamente dignas. Desde os anos 1980 em todo o mundo, e no Brasil especialmente a partir dos anos 1990, vive-se uma época de recuos históricos das conquistas da classe trabalhadora e avanço do capital sobre os limites que as lutas do século XX impuseram à exploração. Por trás desse processo está o esforço do capital para superar as várias crises cíclicas que, por suas dimensões cada vez mais planetárias, indicam para muitos analistas uma crise estrutural, ou sistêmica. Todos os processos de reestruturação produtiva induzidos desde os anos 1970, assim como a disseminação de modelos neoliberais de gestão do Estado, criaram as condições para tal avanço do capital sobre as conquistas dos trabalhadores. Tal processo adquire características ainda mais violentas em uma periferia capitalista tardiamente industrializada e economicamente dependente do capital externo como a brasileira, em que as conquistas da classe trabalhadora eram ainda muito limitadas e onde a necessidade de gerar lucros capazes de remunerar tanto os capitais locais quanto os forâneos tendeu a produzir sempre uma superexploração da força de trabalho (para usar o sentido dado à expressão por Ruy Mauro Marini [1]).

“O partido que carrega os trabalhadores em seu nome, desde o primeiro mandato de Lula, não governa para eles, governa para o capital”

 

IHU On-Line – O que essas greves indicam do ponto de vista do trabalho no Brasil, considerando que há críticas positivas em relação aos governos Lula e Dilma no sentido de aumentar o salário mínimo e criarem políticas de crédito para o consumo?

Marcelo Badaró Mattos – Nestes quase 12 anos de gestões petistas do governo federal, tanto nas fases de crescimento mais significativo no segundo mandato de Lula da Silva quanto nos períodos de quase estagnação do crescimento econômico, como hoje em dia, a maior parte dos empregos gerados no Brasil foi ancorada em baixo salário. Dados de 2011 indicam que 82% dos empregados no Brasil recebem até três salários mínimos (30% recebem até um salário mínimo). Calcula-se entre 8 e 10 milhões o número de trabalhadores terceirizados. O número de empregados sem assinatura na carteira de trabalho diminuiu nos últimos anos, mas se somarmos os que não possuem registro aos que não contribuem para a previdência e aos cerca de 7% de desempregados (segundo os dados mais recentes do IBGE), temos uma ideia do grau de precarização das relações de trabalho no Brasil.

Os aumentos do salário mínimo acima da inflação e as facilidades do crédito consignado e do crediário no comércio estimularam uma ampliação do consumo de fôlego curto, a qual o governo tenta dar sobrevida através das isenções fiscais (ou seja, pagamos todos para garantir o lucro das montadoras de automóveis e fabricantes de eletrodomésticos e eletrônicos, praticamente todas grandes transnacionais). Mas é preciso lembrar que os reajustes do salário mínimo mal e mal o recolocaram no patamar dos anos 1980, que já era o ponto mais baixo da sua curva desde o final dos anos 1950. E a facilidade do crédito é também a facilidade da dívida, cujo limite é também pouco elástico em se tratando de trabalhadores de renda tão baixa. As greves constituem uma das reações possíveis a esse quadro.

 

IHU On-Line – E o que as greves sinalizam, especificamente, em relação à representação dos sindicatos e à organização das categorias?

Marcelo Badaró Mattos – Quando diversas categorias fazem greves independentemente da orientação das direções sindicais, ou mesmo contra elas, estamos diante de um quadro em que um processo de reorganização sindical se faz necessário. A última vez em que isso ocorreu com proporções significativas foi no fim da década de 1970 e início dos anos 1980, quando das greves do chamado “novo sindicalismo”, algumas delas tendo à frente direções sindicais representativas, mas muitas construídas por “oposições sindicais”, ou mesmo por setores menos organizados de bases sindicais insatisfeitas com o perfil “pelego” de suas direções. Daquelas lutas surgiu a Central Única dos Trabalhadores (CUT), e mais tarde outras centrais que com ela disputaram espaço por uma via menos combativa.

 

IHU On-Line – A centrais sindicais ainda têm relevância na atual situação da discussão trabalhista no país?

Marcelo Badaró Mattos – Aquela CUT que emergiu das lutas dos anos 1970/80 já não existe mais. Em lugar da central sindical autônoma em relação ao governo e aos patrões, que propunha um sindicalismo classista, combativo e construído pela base, se ergue hoje um imenso aparato burocrático, atrelado ao Estado, pois dependente da contribuição sindical compulsória e de fundos públicos e dominada por uma concepção de colaboração de classes, que se espelha em cada posicionamento de seus dirigentes. Centrais que se apresentavam como rivais, à direita, daCUT nos anos 1990, como a Força Sindical, hoje praticamente se equivalem em propostas e compromissos com Estado e patrões. Novas centrais surgiram nos últimos anos, quase todas com um objetivo claro de se credenciarem para arrecadar uma fatia do bolo da contribuição sindical compulsória. Esses aparatos burocráticos cumprem muito mais o papel de dique de contenção do que o de polo irradiador das greves e mobilizações. Há, no entanto, espaço para o surgimento de alternativas.

As greves hoje em curso são fragmentadas. Em alguns momentos se tenta unificar atividades e manifestações, mas na ausência de centrais sindicais amplas e representativas dispostas a dirigir a unificação das lutas (há quantos anos não ouvimos falar a sério da ideia de uma greve geral no Brasil?), qualquer caminho unitário é mais difícil de ser trilhado. Há alguns esforços em curso na direção de se constituir um polo sindical combativo e o mais significativo deles me parece ser a Central Sindical e Popular – Conlutas. Digo isso porque a CSP-Conlutas se propõe a reunir não apenas sindicatos, mas também outras organizações e movimentos com base social na classe trabalhadora, como movimentos de luta pela moradia, pela reforma agrária, pela igualdade racial e de gênero, etc.

Em um período em que a classe trabalhadora se encontra profundamente fragmentada e em que uma parcela expressiva dela trabalha de maneira informal e precária, não sendo a forma sindicato tradicional capaz de agregar todas as parcelas da classe, uma central de sindicatos e movimentos sociais pode ser uma boa saída. Há que se ressalvar, porém, que embora seu processo de construção já tenha uma década, a CSP-Conlutas tem dimensões ainda muito pequenas para dar conta dos desafios que se apresentam.

“A retirada de direitos, que vinha dos anos 1990, continuou, como ficou evidente já nos primeiros meses do primeiro mandato de Lula”

IHU On-Line – Quais têm sido as propostas das esquerdas em relação às discussões acerca do trabalho?

Marcelo Badaró Mattos – As forças políticas de esquerda, entendidas como aquelas que reivindicam a alternativa socialista à ordem capitalista, sofreram duramente com o recuo das lutas da classe trabalhadora, de forma análoga ao sindicalismo combativo, e suas dificuldades são também um componente desse recuo. Hoje, não apenas o desempenho eleitoral dessas forças é muito pouco significativo, como sua inserção nos movimentos sociais de base trabalhadora é diminuta, sendo reduzida sua capacidade de influenciá-los, como ficou evidente no ano passado, em meio às “jornadas de junho”, quando a esquerda organizada não conseguiu exercer um papel protagônico nas manifestações de massa, abrindo-se, inclusive, em meio aos manifestantes, durante um certo período, o espaço para um rechaço, de matriz conservadora, aos partidos de forma geral. Seria, entretanto, injusto não reconhecer que as organizações de esquerda vêm cumprindo um papel importante, com todas as suas dificuldades, ao aglutinar forças na resistência aos ataques do capital às conquistas da classe trabalhadora, se postando contra as “reformas” que retiram direitos, assim como apresentando propostas de reconquista desses direitos — a redução da jornada de trabalho sem redução de salário, o fim do fator previdenciário no cálculo das aposentadorias, a anulação de medidas privatizantes na área da saúde e previdência (como o fundo de pensão privado para os novos servidores públicos, FUNPRESP, e a empresa que privatiza os hospitais federais, EBSERH), entre outras.

 

IHU On-Line – Como avalia especificamente a gestão dos governos Lula e Dilma em relação às questões trabalhistas, sendo que este é o partido dos trabalhadores?

Marcelo Badaró Mattos – Os governos do Partido dos Trabalhadores possuem uma base eleitoral ancorada em setores da classe trabalhadora urbana e, cada vez mais, nas parcelas mais precarizadas e pauperizadas da população dos chamados rincões de pobreza do interior do país. No entanto, o partido que carrega os trabalhadores em seu nome, desde o primeiro mandato de Lula, não governa para eles, governa para o capital. Daí que, em relação às questões trabalhistas, já a partir de 2003, suas medidas foram sempre de retrocesso. A retirada de direitos, que vinha dos anos 1990, continuou, como ficou evidente já nos primeiros meses do primeiro mandato de Lula, com a sua “reforma” da previdência, ao que se seguiram mudanças na legislação das falências e das pequenas e médias empresas na mesma direção. No campo da legislação sindical ocorreu um aprofundamento do atrelamento dos sindicatos ao Estado, justo no caminho oposto ao que o dirigente sindical dos metalúrgicos de São Bernardo, Lula, pregava em fins dos anos 1970.

IHU On-Line – Em relação ao trabalho no Brasil, que avanços e retrocessos é possível apontar?

Marcelo Badaró Mattos – Todas as respostas anteriores apontam para um balanço em que, nas relações capital-trabalho no Brasil das últimas décadas, as forças do trabalho perderam muito. No entanto, no último período, a elevação no nível de conflitividade social — com as manifestações massivas do ano passado e a onda de greves deste ano — parece apontar para o início de um novo ciclo de lutas da classe trabalhadora. Só um movimento desse tipo poderá reverter o processo de retirada de direitos e retrocesso no grau de organização e consciência da classe, permitindo avanços significativos para os trabalhadores.

(Por PatriciaFachin)

 

 [1] Ruy Mauro Marini (Barbacena, 1932 – cidade do Rio de Janeiro, 1997): cientista social brasileiro. Conhecido internacionalmente como um dos elaboradores da Teoria da Dependência. Embora extremamente conhecido nos países latino-americanos de língua espanhola, sua obra é pouco conhecida no Brasil. (Nota da IHU On-Line)

Iminente risco de novas barbáries em Pedrinhas. Presos da Casa de Detenção estão fora das celas

          reuniao

Roseana Sarney em reunião com o ministro José Eduardo Cardozo e que resultou na criação do Comitê da Crise Carcerária. Até hoje ele não mostrou a razão pela qual criado. Os assassinatos e fugas continuam ocorrendo no Complexo de Pedrinhas e se desconhece qualquer providência do tal Comitê.

A destruição total de dois pavilhões da Casa de Detenção do Complexo Penitenciário de Pedrinhas vem sendo mantida em silêncio pela Secretaria de Justiça e Administração Penitenciária do Estado. Uma das unidades foi exatamente, a em que houve a última barbárie dentro do Sistema Penitenciário do Maranhão em que foram mortas dez pessoas, algumas decapitadas. Ela havia sido totalmente recuperada mediante contrato sem licitação por mais de um milhão de reais, inclusive com o aproveitamento da ferragem velha. A revolta dentro da unidade prisional já era prevista e por sucessivas vezes, a Policia Militar e o GEOP já haviam chamado a atenção dadireção da unidade prisional sobre um jogo de futebol existente à noite, em que havia suspeitas de consumos de drogas e bebidas alcóolicas pelos detentos e a existência de muitas discussões e riscos iminentes de desentendimentos.

         As origens dos problemas que resultaram nos conflitos e a destruição dos dois pavilhões são mantidas em sigilo pela Sejap, mas as facilidades, principalmente para alguns presos que não vinham sendo recolhidos as celas e outros privilégios, e excessivosrigores para quem não fazia parte do grupo afinado com o pessoal da unidade prisional. A verdade é que os grupos que se sentiam discriminados decidiram tomar um posicionamento e promoveram uma destruição total em dois pavilhões. O problema não foi maior, e não se estendeu aos dois outros pavilhões devido a ação imediata do GEOP com o apoio da Policia Militar. Se houvesse facções rivais na revolta, pouco ou nada poderia ser feito, a não ser recolher mortos e feridos, registrou um policial militar revoltado com as facilidades proporcionadas para presos, e que coloca em risco a vida de muita gente.

       Com os pavilhões destruídos, dezenas de presos estão soltos perambulando pelas áreas destruídas e com muita munição resultando dos ferros da construção, além de pedras e material elétrico. Como não há espaço para a colocação dos presos, aumentam os riscos de novos problemas com proporções bem maiores.  São iminentes conflitos e confrontos, levando-se em conta que a vigilância interna formada por monitores inexperientes e seguranças armadas sem preparo técnico para o trabalho com população carcerária, o que aumenta ainda mais a fragilidade e a responsabilidade do Governo do Estado.

       As constantes revoltas dentro das unidades prisionais com a destruição de pavilhões são decorrentes da superlotação e muito maior pelas facilidades e vulnerabilidade para a entrada de drogas, celulares, armas, bebidas e muitos objetos, que ocorrem todos os dias. A Casa de Detenção está prestes a explodir com consequências inimagináveis. Tenho procurado chamar atenção das autoridades, até mesmo para que depois não venham as lamentações dissimuladas, o que tem se constituído na prática habitual do Secretário de Justiça e Administração Penitenciária e da governadora Roseana Sarney, que tem no Sistema Penitenciário a maior referência da sua administração.  Mais uma vez pergunto, cadê o tal Comitê da Crise Carcerária e os seus membros?

População prisional chega a 10,2 milhões no mundo, diz instituto

Em 15 anos, estimativa é que número aumentou entre 25% e 30%.
Brasil tem 4ª maior população carcerária do mundo, com 548 mil presos.

Presídio de Tabatinga, no estado do Amazonas

 

presídio

Mais de 10,2 milhões de pessoas são mantidas em instituições penais em todo mundo, segundo uma publicação do Centro Internacional de Estudos Penitenciários (ICPS, na sigla em inglês) divulgada no final de novembro. A maioria dos detentos está concentrada nos Estados Unidos (2,24 milhões), na China (1,64 milhões), na Rússia (681,6 mil) e no Brasil – que, com 548 mil presos, tem a quarta maior população prisional do mundo.

Os dados da 10ª edição da lista do instituto foram solicitados aos órgãos responsáveis pela administração penitenciária de cada país. Eles se referem ao período entre setembro de 2011 e setembro de 2013. Os únicos países que não constam na lista por falta de informação são Eritreia, Guiné-Bissau, Somália e a Coreia do Norte.

O instituto ainda destaca que alguns números não estão completos. No caso da China, por exemplo, são contabilizados apenas os presos que já foram condenados, e não também aqueles que aguardam julgamento. Caso os estimados 650 mil detentos que aguardam julgamento ou estão em prisões administrativas fossem contabilizados, bem como as cerca de 150 mil pessoas que devem estar presas na Coreia do Norte, a população mundial total de detentos subiria para mais de 11 milhões.

População prisional, por país
País Número de detentos Taxa (número de detentos para cada 100 mil pessoas)
Estados Unidos 2.239.751 716
China 1.640.000 121
Rússia 681.000 475
Brasil 548.003 274
Índia 385.135 30
Tailândia 279.854 398
México 246.226 210
Irã 217.000 284
África do Sul 156.370 294
Indonésia 144.332 59
Fonte: ICPS

Supremacia americana
Nos 15 anos de publicação da lista da população prisional do mundo, o ICPS estima que o número de detentos aumentou entre 25% e 30% no planeta. No período, a população mundial aumentou cerca de 20%. Já a taxa de presos versus população total aumentou 6%, passando de 136 detentos para cada grupo de 100 mil pessoas para 144.

De acordo com a publicação, além da maior população de detentos, os Estados Unidos apresentam a maior taxa prisional, com 716 presos para cada 100 mil pessoas. O país é seguido pela nação caribenha São Cristóvão e Nevis (714), pela africana Seicheles (709), pelas Ilhas Virgens Americanas (539), por Barbados (521) e por Cuba (510).

A menor taxa é de San Marino (6), pois um acordo feito com a Itália determinou que a maioria das pessoas que fossem presas no país poderia ficar encarceradas em solo italiano. Em seguida, estão Comores (16), República Centro-Africana (19), Ilhas Faroe (21) e Liechtenstein (24).

O Brasil aparece na 45ª posição, com 274 presos para cada 100 mil pessoas. Sua taxa, porém, é superior à média mundial. Segundo o estudo, mais da metade (54%) dos 222 países e territórios dependentes listados tem taxas abaixo de 150 por 100 mil pessoas.

A taxa brasileira também é mais alta do que a média dos países da América do Sul – 202. Na região, os únicos países cujos índices são mais elevados do que o do Brasil são Uruguai (281) e Guiana Francesa (278).

A média caribenha é de 376. Nestes casos, as populações prisionais dos países não são elevadas – a maior é a cubana, com 57,3 mil detentos. Porém, como as populações totais das nações também não são muito altas – a maior é também a cubana, com 11,25 milhões -, as taxas ficam acima da média.

A Europa também apresenta diferenças regionais. Os países da parte mais ocidental do continente tem uma taxa média de 98. Esta região inclui a França (98), a Alemanha (79), a Suíça (82), entre outros países. Já na área que abrange as nações que ficam entre a Europa e a Ásia, a média é de 225. O destaque é a Rússia, com índice de 475 presos por 100 mil pessoas.

Brasil tem hoje deficit de 200 mil vagas no sistema prisional

População carcerária atual é de 564 mil; há 20 anos, eram 126 mil presos.
Levantamento mostra que há 280 detentos para cada 100 mil habitantes.

 

Thiago Reis e Clara Velasco Do G1, em São Paulo

mapa

O Brasil tem hoje um deficit de 200 mil vagas no sistema penitenciário. Um levantamento feito pelo G1 com os governos dos 26 estados e do Distrito Federal mostra que a população carcerária atual é de 563.723 presos. Só há, no entanto, 363.520 vagas nas unidades prisionais do país.

O número de presos é mais de quatro vezes o registrado há 20 anos. Atualmente, há 280 detentos por 100 mil habitantes. Em 1993, a proporção era de 85 para cada 100 mil.

Os dados obtidos pela reportagem são os mais atualizados disponíveis, referentes ao fim de 2013 e ao início de 2014. O Ministério da Justiça, por exemplo, só tem os relativos a 2012. Na comparação, é possível constatar, em um ano, o aumento de quase 14 mil presos.

A superpopulação carcerária é um dos motivos apontados para o caos no sistema prisional do Maranhão. O estado, que tem um deficit de 1,2 mil vagas, vive uma onda de ataques a ônibus e delegacias após ordens que partiram de dentro do Complexo de Pedrinhas, em São Luís, onde brigas de facções já provocaram mais de 60 mortes desde o ano passado.

Nesta semana, a Justiça determinou que o governo do Maranhão construa, no prazo de 60 dias, novos estabelecimentos prisionais em conformidade com os padrões previstos nas normas jurídicas, sobretudo nas cidades do interior do estado. A governadora Roseana Sarney prometeu criar 2,8 mil vagas no sistema carcerário do Maranhão e disse não ver necessidade de uma intervenção federal.

São Paulo e o maior deficit do país
O estado de São Paulo é o que possui o maior deficit carcerário do país. Com 206,9 mil presos e 123,4 mil vagas, há uma sobrecarga de 83,5 mil detentos. Segundo a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) do estado, o aumento da população nas prisões é resultado do combate ao crime feito pela “polícia que mais prende no Brasil”.

detentos

Detentos do Complexo Penitenciário de Pedrinhas;
assim como em todo o país, Maranhão também tem
deficit de vagas (Foto: Márcio Fernandes/Estadão
Conteúdo)

A SAP diz, ainda, que possui um plano de expansão dos presídios paulistas, mas que muitos municípios têm dificultado a implantação das unidades. Leia mais.

Por causa de São Paulo, o Sudeste concentra 55% do deficit prisional do país – faltam 110,1 mil vagas na região. O Nordeste vem em segundo lugar, com 38,8 mil vagas a menos que o necessário, seguida pelo Centro-Oeste (19,6 mil), pelo Norte (16,2 mil) e pelo Sul (15,3 mil).

Para tentar lidar com o “boom” de presidiários, quase todos os estados brasileiros têm criado mais vagas nas penitenciárias. Em um ano, foram implantadas 42,2 mil novos lugares, de acordo com o levantamento feito pelo G1. Em apenas dois estados, o número permaneceu o mesmo (Piauí e Roraima) e só em dois houve diminuição (Mato Grosso do Sul e Pernambuco).

No Espírito Santo, o governo diz que a expectativa é zerar o deficit de 1,8 mil vagas até dezembro de 2014, com a construção de mais oito unidades prisionais e a criação de 2.892 novas vagas. O custo estimado dos projetos é de R$ 85,5 milhões.

Em Mato Grosso do Sul, que tem quase 6 mil presos a mais que sua capacidade, estão em fase final de projeto três unidades penais em Campo Grande. No interior, duas penitenciárias estão sendo ampliadas: a de Brilhante a de Corumbá. Um estabelecimento penal de regime semiaberto em Dourados também está em obras.

No Pará, segundo o último relatório estatístico, com dados de 2013, há dez unidades prisionais em construção. A estimativa do governo é que o estado termine 2014 com 3 mil novas vagas. Com 11,6 mil detentos e 7,4 mil lugares nas prisões, o Pará tem um deficit atual de 4,2 mil vagas no sistema penitenciário.

A maioria dos estados consultados também diz ter planos de construir mais unidades prisionais. Para o coordenador nacional da Pastoral Carcerária, padre Valdir João Silveira, esse não é o caminho.

“Nenhum estado que construiu mais presídios está dando conta do deficit de vagas. O que é preciso que ocorra é o que está na lei. Isto é, os presos que aguardam julgamento devem ser julgados no tempo certo e os que estão no semiaberto não devem ficar no fechado. Hoje, 40% dos detentos estão aguardando julgamento. A culpa não é só do Executivo, mas do Judiciário, que tem a obrigação de fiscalizar e acompanhar o sistema prisional. Se [a situação] está como está, é porque não foi feito esse trabalho”, analisa.

presídio

Presídio de Itaí, alvo de rebelião estasemana

Além disso, segundo Silveira, em muitos casos não é dada a devida possibilidade de defesa aos detentos, o que faz inchar o número de pessoas nas prisões.

“Grande parte dos presos depende da Defensoria Pública ou de advogados conveniados do Estado. E aí é fácil entender por que tantos presos com pequenos delitos são condenados. Eles só conhecem seu defensor na hora do julgamento em boa parte das vezes. É um absurdo. A qualidade da defesa fica comprometida”, aponta.

O coordenador da Pastoral diz que,”o sistema prisional nunca cumpriu o que está na lei, que é “ressocializar” o indivíduo.

“Para recuperar os presos, devia haver um grande quadro técnico, com psicólogos, assistentes sociais, pedagogos. Isso não existe. Basta ver também o índice de detentos que estudam ou trabalham. Hoje, a pessoa é jogada no presídio e depois esquecem dela. E a superlotação faz com que haja problemas em um lugar feito para determinado número de pessoas. Isso porque o número de presos aumenta, mas não aumentam os funcionários. O material de higiene e toda a demanda também não acompanham”, destaca Silveira.

VEJA A LISTA DOS NÚMEROS DE DETENTOS E VAGAS POR ESTADO (balanço mais recente divulgado pelos governos)

Estado      Detentos      Vagas

AC              4.379             2.381
AL               5.195             2.615
AP               2.436            1.138
AM              8.500             3.880
BA             11.470             8.347
CE            19.392            15.602
DF             12.422             6.719
ES             15.187           13.340
GO            17.000           13.000
MA              4.663             3.421
MT             10.121            6.038
MS             12.306           6.446
MG             49.431        31.487
PA              11.612           7.451
PB               9.040           5.600
PR              28.027        24.209
PE              29.967        10.500
PI                 3.155           2.238
RJ              33.900        27.069
RN              6.700           4.200
RS             28.046        22.407
RO              7.840           4.928
RR              1.586           1.106
SC             17.200        11.300
SP           206.954      123.448
SE               4.300          2.500
TO               2.894          2.150

Os números relacionados ao Maranhão, embora sejam de janeiro e que foram disponibilizados pelo CNJ, são contestados pelo Sindicato dos Agentes Penitenciários do Maranhão, o qual afirma que o déficitera muito maior à época, muito antes das duas grandes barbáries e dos sucessivos assassinatos dentro dos cárceres.