*David Gertner
A mentira venceu sua batalha mais importante quando deixou de precisar parecer verdade.
Durante muito tempo, a mentira precisou de algum disfarce. Quem mentia procurava parecer verdadeiro. Inventava uma explicação plausível, escondia evidências, apagava rastros. Havia, pelo menos, uma homenagem involuntária à verdade: o mentiroso sabia que, se fosse descoberto, teria alguma coisa a explicar.
Talvez uma das mudanças mais perturbadoras de nosso tempo seja justamente esta: a mentira perdeu a vergonha.
Existe um fenômeno conhecido como mentira patológica, expressão usada para descrever padrões persistentes e recorrentes de falsidade, que podem ocorrer mesmo quando não existe uma vantagem evidente a ser obtida. Não se trata da pequena mentira ocasional, tão antiga quanto a humanidade, nem apenas da falsidade calculada para escapar de uma dificuldade. É a repetição da mentira até que ela se torne parte habitual da relação do indivíduo com a realidade.
Seria imprudente transformar essaI descrição em diagnóstico de líderes políticos. Diagnósticos pertencem aos profissionais que examinam pessoas, não aos cidadãos que observam discursos. Mas não é necessário diagnosticar ninguém para reconhecer um fenômeno coletivo: a mentira sistemática tornou-se uma das ferramentas mais poderosas da política contemporânea.
Políticos sempre mentiram. Imperadores, reis, ditadores e candidatos esconderam derrotas, exageraram conquistas, inventaram inimigos e prometeram aquilo que sabiam não poder cumprir. A mentira política não foi inventada pelas redes sociais nem pelas democracias modernas.
O que parece ter mudado é a escala, a velocidade e, principalmente, a ausência de constrangimento.
Antes, uma mentira descoberta podia destruir uma reputação. Hoje, muitas vezes, ela simplesmente produz outra mentira.
Quando uma afirmação é desmentida, surge uma nova versão. Quando aparecem documentos, os documentos são desacreditados. Quando especialistas contestam uma afirmação, passam a fazer parte da conspiração. Quando jornalistas apresentam evidências, o problema deixa de ser a mentira e passa a ser o jornalismo. E, quando a realidade insiste em contrariar a narrativa, resta uma solução surpreendentemente eficaz: atacar a própria realidade.A mentira deixa então de tentar convencer.
Passa a tentar cansar.
Não é necessário fazer com que todos acreditem numa determinada falsidade. Basta produzir tantas versões, acusações, teorias e contradições que uma parcela da sociedade desista de procurar saber o que aconteceu. A dúvida permanente pode ser politicamente tão útil quanto a crença.
Se ninguém sabe mais em quem confiar, fatos tornam-se opiniões, evidências tornam-se versões e instituições tornam-se suspeitas. A verdade, que exige investigação, paciência e frequentemente alguma complexidade, passa a competir em desvantagem com a mentira, que pode ser simples, emocional e instantânea.
As redes sociais apenas multiplicaram uma vulnerabilidade humana muito anterior à tecnologia: não acreditamos necessariamente naquilo que é verdadeiro. Temos uma extraordinária capacidade de acreditar naquilo que gostaríamos que fosse verdade.
É nesse ponto que o problema deixa de pertencer apenas a quem mente.
Uma democracia pode sobreviver a políticos que mentem. É muito mais difícil sobreviver a uma sociedade que deixa de se importar com a diferença entre verdade e mentira.
Porque a democracia depende de uma espécie de acordo silencioso: podemos discordar sobre o que fazer, mas precisamos conservar algum território comum sobre aquilo que aconteceu.
Podemos discutir se uma política foi boa ou ruim, quais foram as causas de uma crise ou quem é responsável por determinado fracasso. Mas, quando cada grupo passa a possuir não apenas suas próprias opiniões, mas também seus próprios fatos, o debate deixa de existir.
Restam torcidas.
Talvez por isso a mentira política mais perigosa não seja aquela em que acreditamos. É aquela que sabemos ser mentira e aceitamos porque beneficia o nosso lado.
Nesse momento, já não estamos sendo enganados. Estamos participando.
Passamos a exigir honestidade apenas dos adversários. A mentira do outro torna-se prova de sua indignidade; a mentira dos nossos transforma-se em exagero, estratégia, provocação ou necessidade política.
E assim, pouco a pouco, aquilo que antes causava escândalo passa a provocar apenas aplausos diferentes em lados diferentes da mesma sala.
A mentira venceu sua batalha mais importante quando deixou de precisar parecer verdade.
Talvez o maior perigo não seja que existam pessoas capazes de mentir sem pudor, sem constrangimento e sem limites. Elas sempre existiram e provavelmente sempre existirão.
O verdadeiro perigo começa quando nós perdemos o pudor de acreditar nelas.
*David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor aposentado. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.