Donald Trump diz que eleição no Brasil pareceu “manipulada”

Republicano afirmou não ter apoiado nenhum candidato, mas fala em pleito “corrupto,” O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira, 26, que a eleição presidencial brasileira que deu a vitória a Lula (PT) pareceu “manipulada”.

Questionado por uma repórter sobre a possibilidade de fraude, o republicano disse que o pleito pareceu “corrupto”. Trump, contudo, ressaltou que não apoiou nenhum candidato. “Bem, pareceu terrível para mim. Achei que pareceu terrível. Eu não tomei partido, mas pareceu uma eleição manipulada, francamente. Eu não tomei partido, mas foi uma imagem terrível para o mundo. É outra eleição. Você sabe que eleições devem ser inquestionáveis. E pareceu muito ruim para mim. Eu não tomei partido. Não apoiei ninguém nem nada. Mas eu assisti à eleição. Pareceu tão corrupto, tão terrível”, disse.

Trump também afirmou gostar de Lula, mas disse que a prorrogação concedida pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi estranha. ‘Eu não governo o Brasil. Eu governo os Estados Unidos. Gosto do Lula. Me dou muito bem com ele, mas a prorrogação concedida foi muito estranho”, acrescentou.

Vitória de Lula

A disputa entre Lula e Flávio foi marcada por forte polarização e terminou sob tensão após uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) alterar o horário de votação no dia do pleito. A vitória do petista representa uma virada em relação ao primeiro turno. Em 4 de outubro, Flávio terminou na liderança, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 45,16%. A diferença entre os dois foi de 1,87 ponto percentual.

Lula chega, assim, ao quarto mandato presidencial. Ele foi eleito pela primeira vez em 2002, reelegeu-se em 2006, voltou ao Planalto em 2023 e, agora, conquista mais quatro anos no cargo. A campanha do segundo turno foi marcada menos pela apresentação de programas de governo e mais pela tentativa dos dois lados de elevar a rejeição ao adversário. Lula e Flávio trocaram acusações sobre corrupção, segurança pública, economia e suas respectivas trajetórias políticas. O ex-candidato do PL prometeu judicializar o resultado.

O Antagonista

Os caminhos em debate no governo para lidar com as contas públicas

Fazenda e Planejamento discutem saídas diferentes para conter despesas; empresas precisam avaliar os efeitos de cada uma. A vitória de Lula no segundo turno provocou uma forte reversão das expectativas dos mercados financeiros. Desde o primeiro turno, a perspectiva de eleição de Flávio Bolsonaro havia impulsionado a Bolsa, valorizado o real e reduzido os juros futuros. Na manhã desta segunda-feira, 26, o movimento se inverteu. A Bolsa acionou o circuit breaker, mecanismo de suspensão temporária das negociações, pela primeira vez desde março de 2020. Por volta do meio-dia, o Ibovespa acumulava perdas próximas de 15%, enquanto o dólar subia cerca de 9%, cotado a R$ 5,45. O risco-Brasil avançava mais de 20%. Os juros futuros também dispararam, com altas que chegaram a 182 pontos-base nos contratos longos. A turbulência levou o Tesouro Nacional a cancelar leilões de títulos prefixados e indexados à inflação previstos para a semana. As negociações do Tesouro Direto permaneciam suspensas em razão da volatilidade.

Por que isso importa

Seria um erro interpretar a reação apenas como preferência dos investidores por um candidato de direita. Há razões econômicas concretas para a desconfiança em relação à continuidade da política econômica petista.

Durante o terceiro mandato de Lula, a dívida bruta cresceu mais de 11 pontos percentuais, chegando a 82,9% do PIB, ou R$ 11,1 trilhões. A Selic está em 13,75%, enquanto a economia cresceu apenas 1,9% nos últimos quatro trimestres.

A deterioração fiscal contribui para manter os juros elevados, encarece o crédito e aumenta a vulnerabilidade cambial. Para as empresas, significa maior custo de financiamento, menor previsibilidade e menos incentivos ao investimento. Lula tampouco ofereceu sinais tranquilizadores durante a campanha. Anunciou benefícios com impacto estimado em até R$ 53,6 bilhões em 2027 e classificou como “babaquice” a preocupação em produzir superávits primários. É legítimo questionar sua disposição (e capacidade) de promover o ajuste necessário.

Panorama: dois caminhos para o ajuste

O governo estuda enviar ao Congresso uma PEC para reforçar os mecanismos de controle das despesas públicas. Segundo o jornal Valor, há diferenças entre as propostas defendidas pelos ministérios da Fazenda e do Planejamento. A Fazenda propõe reduzir de 2,5% para 1,5% o limite máximo de crescimento real das despesas estabelecido pelo arcabouço fiscal. A mudança restringiria o ritmo de expansão dos gastos, mesmo quando o crescimento da arrecadação permitisse aumentos maiores.

O Planejamento, comandado por Bruno Moretti, defende outros instrumentos: tornar permanentes os gatilhos de contenção de despesas, ampliar a parcela do Orçamento sujeita a contingenciamento e recorrer a uma nova Desvinculação de Receitas da União (DRU), que daria maior liberdade para distribuir recursos entre diferentes finalidades. Moretti afirma que o governo pretende cumprir as metas de superávit primário, de 0,5% do PIB em 2027 até 1,5% em 2030. As alternativas continuam em discussão.

Lupa: aonde levam os caminhos

A diferença é entre reduzir o ritmo de crescimento das despesas e ampliar a capacidade de administrar o Orçamento. A proposta da Fazenda estabelece uma restrição mais severa à expansão do gasto total. Em princípio, isso pode contribuir para desacelerar o crescimento da dívida e reduzir a necessidade de financiamento do governo. Com cerca de 92% das despesas classificadas como obrigatórias, um limite mais apertado pode comprimir ainda mais o espaço para investimentos e gastos discricionários.

A proposta do Planejamento segue outra lógica. Gatilhos, contingenciamentos e desvinculações dão ao governo instrumentos para acomodar pressões e cumprir metas anuais, sem necessariamente alterar as regras permanentes de crescimento das despesas. Essa flexibilidade pode facilitar a gestão orçamentária e preservar as prioridades do Executivo. Mas também tende a transferir o esforço de ajuste para a parcela relativamente pequena do Orçamento sobre a qual o governo tem maior liberdade de decisão. Há, portanto, uma diferença entre conseguir cumprir a meta fiscal de determinado ano e alterar de maneira duradoura a trajetória da dívida. Os caminhos podem seguir em paralelo. Um limite de crescimento mais rigoroso pode coexistir com mecanismos de gestão mais flexíveis. A questão decisiva é saber se a combinação produzirá economia efetiva e sustentável ou apenas permitirá administrar, por mais algum tempo, as pressões de um Orçamento cada vez mais rígido.

Radar empresarial

Para as empresas, a diferença entre essas estratégias é bastante significativa. Um ajuste baseado em limites duradouros de despesa pode contribuir para reduzir a percepção de risco fiscal e, ao longo do tempo, favorecer juros menores. Mas sua credibilidade não dependerá apenas da aprovação de uma regra. Nos últimos anos, o Brasil viu o teto de gastos e o arcabouço fiscal serem rapidamente desmoralizados.

Já um ajuste concentrado em contingenciamentos pode produzir maior incerteza sobre a execução de investimentos públicos, contratos e programas dos quais participam empresas privadas. A revisão de benefícios tributários, por sua vez, pode alterar custos e decisões de investimento em determinados setores. Três respostas precisam ser cobradas imediatamente: quanto o governo pretende economizar com cada medida; como acomodará as promessas eleitorais sem ampliar o desequilíbrio; e qual trajetória de dívida espera alcançar até 2030. Há ainda uma quarta pergunta: quais despesas obrigatórias o governo está disposto a rever? Sem resposta, a discussão sobre gatilhos e limites permanece no terreno das intenções.

Resumo da ópera

O governo Lula admite a necessidade de fazer um ajuste fiscal, mas ainda não apresentou uma estratégia suficientemente detalhada para estabilizar a dívida. A divergência entre Fazenda e Planejamento importa menos como disputa interna do que pelo que revela: ainda não está claro onde recairá o esforço de contenção das despesas. Para as empresas, essa definição terá consequências sobre juros, tributos, investimentos públicos e previsibilidade econômica. É por ela que as cobranças devem começar.

O Antagonista

 

Fundos de ações brasileiras despencam em Nova York e antecipam sinais terríveis para o nosso mercado

O EWZ, fundo que acompanha ações brasileiras negociadas no exterior, registrava queda de 19% no after-hours às 21h37 deste domingo (25), após a confirmação da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O after-hours é uma espécie de horário extra da bolsa americana, em que as ações continuam sendo negociadas mesmo após o fechamento oficial do mercado. O fundo havia encerrado o pregão de sexta-feira (23) em alta de 1,77%. O EWZ é o fundo negociado em Nova York que reúne as maiores empresas da Bolsa brasileira, como Petrobras, Vale e Itaú. É por ele que o investidor estrangeiro compra e vende Brasil.

Como negocia fora do horário da B3, é o primeiro termômetro do resultado. Caiu de US$ 42,59 na sexta para US$ 34,28 no pregão noturno de Nova York. Depois do 1º turno, com a vitória parcial de Flávio, o EWZ tinha subido 12,5% em um dia. Agora devolveu tudo e mais um pouco.

Jornal da Cidade Online

 

Juros futuros disparam após vitória de Lula

Taxas dos contratos de DI sobem até 263 pontos-base após resultado das urnas. As taxas dos Depósitos Interfinanceiros (DIs), conhecidas como juros futuros, dispararam na manhã desta segunda-feira (26), após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial. A reação reflete a surpresa do mercado financeiro, que estava majoritariamente posicionado para uma vitória de Flávio.

Às 9h58, a taxa do DI para janeiro de 2028 alcançou 14,915%, alta de 206 pontos-base em relação aos 12,859% registrados no ajuste da sessão anterior. Na ponta mais longa da curva de juros, o contrato com vencimento em janeiro de 2035 avançou para 15,375%, uma elevação de 263 pontos-base ante os 12,745% da sessão anterior. Os contratos de longo prazo refletem, entre outros fatores, as expectativas dos investidores para a trajetória fiscal do país. Lula venceu a disputa pelo Palácio do Planalto com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Diante do resultado, operadores do mercado já projetavam, desde a noite de domingo (25), uma forte alta dos juros futuros, especialmente nos contratos de vencimento mais distante.

O movimento representa uma reversão da reação observada após o primeiro turno, quando Flávio terminou à frente de Lula. Na ocasião, a perspectiva de vitória do senador provocou euforia no mercado, levando a taxa do DI para janeiro de 2035 a recuar mais de 130 pontos-base.

Diário do Poder

 

Bolsa desaba quase 17% após vitória de Lula. Queda maior que no pior dia da pandemia

Queda do Ibovespa foi maior que os 14,78% negativos em 12 de março de 2020, o pior dia da pandemia. O Ibovespa chegou a cair cerca de 17% nesta segunda-feira (26), no primeiro pregão após o segundo turno das eleições, revelando o pessimismo dos investidores com a vitória de Lula (PT) no segundo turno das eleições presidenciais. A queda, que chegou a superar 16,7%, é a maior diária desde 21 de março de 1990, quando o índice recuou 22,27% no dia seguinte ao anúncio do Plano Collor.

Mais de R$890 bilhões em valor de mercado das empresas brasileiras foram apagados ao longo do dia. O movimento reflete a reação do mercado à reeleição do petista, que venceu Flávio Bolsonaro (PL) por 51,75% a 48,25%. O resultado inverteu a expectativa predominante após o primeiro turno, quando Flávio ficou à frente e o Ibovespa chegou a subir fortemente (incluindo um salto de cerca de 7,7% no dia seguinte).

Para efeito de comparação, a queda de hoje supera episódios históricos recentes e anteriores, como:

  • Crise da Rússia (10/09/1998): −15,82%
  • Crise asiática (27/10/1997): −14,97%
  • Pior dia da pandemia (12/03/2020): −14,78%
  • Crise de 2008 (22/10/2008): −10,18%
  • “Joesley Day” (18/05/2017): −8,80%

O mercado já antecipava forte volatilidade. O ETF EWZ (que replica ações brasileiras em Nova York) chegou a cair cerca de 18-19% no after-hours de domingo, e analistas projetavam risco elevado de circuit breaker (acionado em quedas de 10%, 15% e 20%). O dólar também avançou com força, refletindo o ajuste de posições que estavam concentradas na expectativa de alternância de poder e de um cenário fiscal mais restritivo.

A sessão de hoje marca um dos momentos mais intensos da história recente da B3, revertendo parte importante do rali eleitoral registrado após o primeiro turno.

Diário do Poder

JP Morgan rebaixa recomendação do real e de títulos após vitória de Lula

Eleição presidencial deve provocar “reavaliação significativa” dos ativos brasileiros na reabertura das negociações de hoje. O JP Morgan rebaixou a recomendação do real brasileiro e dos títulos públicos nacionais de “overweight” (exposição acima da média, equivalente a compra) para “marketweight” (neutro) após a vitória de Lula (PT) no segundo turno das eleições presidenciais, neste domingo (25). O presidente derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) e conquistou o quarto mandato.

Segundo a equipe de analistas liderada por Vinicius Moreira, o resultado — considerado inesperado pelo mercado — deve provocar uma “reavaliação significativa” dos ativos brasileiros na reabertura das negociações nesta segunda-feira (26). Os investidores haviam precificado um cenário diferente após o primeiro turno, quando Flávio liderou as pesquisas e o JP Morgan elevou as recomendações para overweight, apostando em um real mais forte e em cortes de juros.

Com a eleição definida, o banco aponta três pontos a acompanhar de perto: a postura da oposição (Flávio Bolsonaro não reconheceu o resultado), a composição do novo governo e a reação do mercado, que pode influenciar as perspectivas de política pública.

Em termos setoriais, os analistas esperam que os setores cíclicos domésticos sofram forte queda, enquanto as empresas exportadoras devem apresentar desempenho superior, beneficiadas pela desvalorização da moeda. O banco também alerta para a possibilidade de acionamento de circuit breakers na abertura desta segunda-feira.

Diário do Poder

Vitória de Lula faz bolsa despencar e dolár disparar por causa do circuit braker

Dólar disparou mais de 12%, atinge R$ 5,60 e ações de empresas brasileiras despencaram com Ibovespa futuro desabando mais de 17%. A inesperada virada eleitoral que reelegeu o presidente Lula (PT) neste domingo (25) levou o mercado financeiro a reagir com uma disparada de 12% no dólar e os negócios despencarem cerca de 20% na bolsa de valores, nesta segunda-feira (26). O cenário pessimista com a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) levou a bolsa B3 a suspender negociações de ativos à vista por 30 minutos, no mecanismo de proteção financeira denominado circuit breaker.

A decisão da bolsa brasileira não era tomada desde pandemia de covid-19. E foi provocada pela alta acentuada da moeda americana, que atingiu R$ 5,60, e pelas ações brasileiras terem levado o indicador denominado Ibovespa futuro a desabar mais de 17% nas primeiras horas deste dia seguinte à reeleição de Lula, em relação a negócios que vencem em 16 de dezembro de 2026.

Além de suspender negociação de ações, o circuit braker paralisa negociações com títulos de renda fixa privada, atrelados à cotação de ativos no exterior (BDRs) e com fundos de índice (ETFs).

Diário do Poder

Conceituado cientista político conclui: “Essa eleição está viciada”

A avaliação é do cientista político Antônio Lavareda diante da inédita prorrogação do horário de votação, neste domingo (25), até as 19h. A decisão de estender o prazo partiu do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, e não do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques.

“Kassio e Zanin, juntos, criaram duas categorias de eleitores: o eleitor que vota até as 17h e o que vota até as 19h”, afirma Lavareda.

E advertiu o seguinte:

“Não pode ter eleitor que tenha acesso a uma agenda de nove horas para votar e outro, de 11 horas. Isso é elementar”.

Para ele, a medida atinge “o aspecto de isonomia mais elementar” e torna a eleição “passível de nulidade”.

O cientista político aponta omissão do TSE na fiscalização da oferta de transporte público gratuito aos eleitores.

“O TSE não fez nada antes para supervisionar o direito de transporte público gratuito. Não é deixar para, no dia da eleição, à tarde, reagir. Havia denúncias em curso, que, hoje, com a tecnologia, é possível averiguar”, pontua.

Ele avalia que o tribunal “demorou a reagir, deixou dar cinco horas da tarde”. Sobre a atuação do presidente Kassio Nunes Marques, é categórico:

“A posição dele foi a não posição: a omissão”.

Na avaliação de Lavareda, o resultado da eleição poderá ser contestado judicialmente. O cientista político também lamenta o provável efeito colateral disso tudo: o desgaste da credibilidade das instituições eleitorais brasileiras. Para ele, a “Justiça Eleitoral está conseguindo jogar fora uma das últimas institucionalidades nossas que orgulham o País diante do mundo”.

Jornal da Cidade Online

As Eleições Acabaram, O País Não

                                                                                           Por David Gertner

As urnas escolhem quem governa, mas não encerram nossas responsabilidades. O futuro de uma nação exige compromissos que sobrevivam às disputas pelo poder. As urnas foram fechadas. Os votos, contados. Uns comemoram, outros lamentam. Há abraços de vitória e silêncios de derrota. Nas ruas, nas casas e nas redes sociais, ainda ecoam as palavras de uma disputa que dividiu famílias, afastou amigos e transformou adversários em inimigos.

Mas, quando termina a eleição, o país continua.

Continuam as crianças que precisam aprender, os doentes que esperam atendimento, as famílias que não conseguem chegar ao fim do mês. Continuam os jovens em busca de oportunidades, os trabalhadores que temem o desemprego, os idosos que precisam de proteção e os cidadãos que desejam simplesmente viver sem medo.

Nenhum desses problemas perguntou em quem votamos.

A democracia permite que diferentes projetos disputem o poder. Ideias distintas, prioridades divergentes e visões de mundo conflitantes fazem parte de uma sociedade livre. O problema começa quando a disputa se transforma numa guerra entre identidades. Quando vencer significa humilhar o adversário e perder significa desejar o fracasso do vencedor, ainda que esse fracasso arraste consigo o país inteiro.

Uma eleição não é uma guerra civil. Quem vence recebe um mandato, não a propriedade do país. Quem perde continua sendo cidadão, não um estrangeiro em sua própria terra.

Há diferenças legítimas sobre o tamanho do Estado, a política econômica e os caminhos para alcançar o desenvolvimento. Mas deveriam existir compromissos nacionais que nenhuma alternância de poder pudesse abandonar.

Uma criança não pode esperar quatro anos para aprender a ler porque mudou o governo. A saúde não pode depender da cor de uma bandeira. A segurança pública não pode ser reduzida a slogans enquanto cidadãos convivem com a violência. A Constituição, a independência da Justiça, a liberdade de imprensa e a integridade das instituições não podem ser negociadas conforme as conveniências de quem ocupa o poder.

O combate à pobreza, a garantia de uma renda mínima às famílias vulneráveis, a redução das desigualdades, a moradia digna e o saneamento básico tampouco deveriam ser bandeiras exclusivas de um partido.

Um país precisa crescer, atrair investimentos, gerar empregos e criar oportunidades. Precisa de responsabilidade fiscal, estabilidade econômica, infraestrutura e segurança jurídica. Precisa investir em ciência, pesquisa, tecnologia e cultura, proteger seu patrimônio ambiental e preparar as próximas gerações para um mundo que ainda não conhecemos.

E precisa combater a corrupção não apenas quando ela envolve adversários, mas também quando compromete os interesses daqueles com quem nos identificamos.

Nada disso deveria ser patrimônio eleitoral de ninguém. São responsabilidades permanentes de qualquer governo. Os caminhos para realizá-las podem ser diferentes, mas a divergência sobre os meios não deveria servir de desculpa para abandonar os fins.

Tampouco basta anunciar boas intenções. Um projeto de governo precisa apresentar prioridades, propostas viáveis, recursos identificáveis e caminhos possíveis para transformar promessas em resultados. Não se governa uma nação com palavras que emocionam multidões, mas não resistem ao encontro com a realidade.

Prometer tudo a todos, sem explicar custos, limites e escolhas necessárias, pode conquistar aplausos e votos. Não constrói escolas, não melhora hospitais nem cria empregos. E, quando promessas impossíveis fracassam, não basta responsabilizar governos anteriores, adversários, instituições ou circunstâncias externas. Governar também significa assumir a responsabilidade pelo que não foi realizado, distinguir obstáculos reais de desculpas convenientes e reconhecer erros.

A esperança é indispensável à política. Mas a esperança que merece confiança não promete milagres. Apresenta caminhos, reconhece dificuldades e presta contas dos resultados.

Talvez uma das maiores dificuldades das democracias seja confundir fidelidade a princípios com fidelidade a pessoas. Defendemos atitudes que condenaríamos se fossem praticadas pelo outro lado. Justificamos abusos porque favorecem nossas convicções. Transformamos a crítica em traição e a concordância em prova de virtude.

E, pouco a pouco, deixamos de perguntar se uma decisão é boa para o país. Passamos a perguntar se é boa para o nosso lado.

A democracia exige exatamente o contrário.

Quem votou no vencedor não deve oferecer um cheque em branco. Quem votou no derrotado não deve transformar a oposição em sabotagem. Apoiar uma medida correta não significa aderir ao governo. Criticar uma decisão equivocada não significa desejar o fracasso da nação.

A lealdade democrática não pertence a um governante, a um partido ou a uma ideologia. Pertence à Constituição, às instituições e aos cidadãos.

Por isso, a fiscalização do poder deve começar no primeiro dia do novo mandato. Não depois de uma crise, quando surgirem escândalos ou apenas quando os interesses de determinado grupo forem contrariados. Desde o início, todos deveriam cobrar metas verificáveis, transparência, respeito às instituições e responsabilidade na utilização dos recursos públicos.

Uma sociedade democrática precisa de governos que aceitem ser questionados, de oposições capazes de reconhecer acertos e de cidadãos que não mudem seus princípios conforme muda o ocupante do poder.

União nacional não significa unanimidade. Não exige esquecer divergências, renunciar a convicções ou silenciar diante de injustiças. Significa reconhecer interesses maiores do que nossas preferências eleitorais e defender para os outros as mesmas garantias que exigimos para nós.

Há, entretanto, outra responsabilidade que começa no dia seguinte à eleição: a escolha de quem merecerá governar no futuro.

Essa escolha não deveria ocorrer apenas nas últimas semanas de uma campanha, sob o impacto de discursos inflamados, promessas sedutoras e medos cuidadosamente alimentados. Ela começa quando desaparecem os palanques e as palavras precisam se transformar em atitudes.

É nesse período que devemos observar quem procura aproximar os cidadãos e quem depende de mantê-los divididos. Quem apresenta um projeto de governo e quem possui apenas um projeto de poder. Quem pensa nas necessidades da sociedade e quem privilegia seus próprios interesses, os de seus aliados ou dos grupos que sustentam suas ambições.

O respeito às instituições se revela sobretudo quando suas decisões contrariam os interesses de quem governa. A honestidade se revela quando a corrupção envolve aliados. O compromisso com a liberdade se revela quando a crítica incomoda. E a responsabilidade pública se revela na disposição de reconhecer erros, prestar contas e aceitar limites.

Também é no exercício cotidiano da política que se distingue quem sabe ouvir de quem apenas deseja ser aplaudido, quem dialoga sem exigir concordância de quem transforma divergências em traições, quem procura soluções de quem necessita de inimigos.

Uma liderança não deveria ser avaliada apenas pela força de suas palavras, mas pela viabilidade de suas propostas, pela coerência de suas atitudes e pela capacidade de pensar além do próximo mandato. Os problemas de uma nação não obedecem ao calendário eleitoral.

Não se trata de procurar líderes sem convicções ou imaginar uma sociedade sem conflitos. Trata-se de exigir que as convicções convivam com o respeito, que os conflitos sejam enfrentados dentro das instituições e que o exercício do poder tenha como finalidade servir à sociedade, não submetê-la.

Uma nação não precisa de unanimidade para prosperar. Precisa de confiança suficiente para que seus cidadãos, mesmo discordando profundamente, reconheçam que compartilham direitos, responsabilidades e um futuro.

As eleições passam. Os governos se sucedem. As maiorias mudam. Mas a criança que hoje espera uma vaga na escola não pode esperar pela próxima vitória eleitoral. O doente que aguarda atendimento não pode adiar sua dor. A família que não tem o que colocar à mesa não pode alimentar seus filhos com promessas.

Para essas pessoas, o país não é uma disputa entre vencedores e derrotados. É a vida que precisa continuar.

A próxima eleição começa no dia seguinte à anterior. E talvez a pergunta mais importante não seja quem terá força suficiente para conquistar o poder, mas quem demonstrará grandeza suficiente para exercê-lo em benefício de todos.

Porque um país não se constrói pela vitória permanente de uma parte sobre a outra. Constrói-se quando seus cidadãos conseguem reconhecer, acima das diferenças, aquilo que os une.

As eleições acabaram. O país não.

E seu futuro não deveria depender de quem consegue dividi-lo para conquistar o poder, mas de quem é capaz de uni-lo para servir à sociedade.

*David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor aposentado. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.

 

Lula foi reeleito com 51,7% dos votos, em virada para 4º mandato. O STF atropelou o TSE

Flávio Bolsonaro (PL) registrava 48,25% quando a vitória foi reconhecida com cerca de 99% das urnas apuradas. Sob um cenário de crise institucional e de questionamentos sobre a segurança jurídica de decisões da cúpula da justiça do Brasil, o presidente Lula (PT) foi reeleito com cerca 51,76% dos votos válidos, no 2º turno deste domingo (25).

Em uma virada histórica em disputas presidenciais no Brasil, Lula também conquistou o feito inédito de um quarto mandato na Presidência da República. Seu adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL) registrava 48,2%, quando a vitória foi reconhecida com cerca de 99% das urnas apuradas.

O resultado ocorre no dia em que a Justiça Eleitoral foi atropelada por uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que estendeu em mais duas horas o horário de votação. O adiamento ocorreu a pedido de Lula, que denunciou falhas no transporte público em diversos estados. E foi determinado pelo ministro Cristiano Zanin, nomeado pelo petista para o STF, após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ultrapassar o horário da votação sem decidir sobre o pleito do petista.

Após Lula pedir que a votação fosse estendida nos estados Piauí, Paraíba, Paraná, Pará, Rio de Janeiro, São Paulo, Alagoas, Pernambuco e Roraima, Flávio Bolsonaro também chegou a solicitar que o TSE prorrogasse o horário da votação, para São Paulo, Paraná e Santa Catarina, com o argumento de que haveria problemas de acesso às urnas, por causa de temporais.

O TSE foi atropelado pela decisão de Zanin, às 17h01, quando muitas das sessões já haviam encerrado a recepção de votos. E o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, nomeado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), acatou a decisão do STF, após quase uma hora de indefinição nos tribunais regionais eleitorais do Brasil.

Diário do Poder