Mais de 33 milhões não foram às urnas. Talvez a pergunta não seja apenas porque o eleitor faltou, mas o que a política está fazendo para que ele queira voltar. O primeiro turno terminou com uma informação que deveria chamar a atenção de qualquer candidato que tenha chegado ao segundo turno: 33,4 milhões de eleitores não foram às urnas. A abstenção foi de 21,08% dos 158,7 milhões de eleitores aptos. É o segundo maior percentual registrado em um primeiro turno de eleição geral, atrás apenas dos 21,49% de 1998. Em 2022, foram 20,95%. O TSE já avisou que pretende trabalhar para reduzir a ausência no segundo turno.
O número absoluto chama atenção. Em 1998, pouco mais de 106 milhões de brasileiros estavam aptos a votar; hoje, esse contingente se aproxima de 159 milhões. São cerca de 53 milhões de eleitores a mais, um crescimento de quase 50% em menos de 30 anos. Portanto, uma taxa semelhante hoje significa uma quantidade muito maior de brasileiros fora da decisão. É por isso que os ausentes não devem ser tratados como uma estatística secundária, eles são parte central da fotografia eleitoral.
Mas existe um erro em transformar todos eles em uma categoria política. O abstencionista não é um partido, não é de direita nem de esquerda. Há idosos para quem o voto é facultativo, pessoas que estavam longe do domicílio eleitoral, dificuldades de deslocamento, problemas pessoais e eleitores que simplesmente escolheram não participar. A pergunta interessante começa justamente aí: entre todos esses motivos, quanto existe de dificuldade e quanto existe de desinteresse?
Não há como responder isso apenas com o resultado das urnas, mas a história eleitoral brasileira oferece uma pista. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso disputava a reeleição contra Lula, o Brasil discutia o Plano Real, a estabilidade da moeda, o desemprego e os efeitos das crises internacionais. Em 2006, Lula buscava a reeleição contra Geraldo Alckmin e o país vivia um ambiente econômico mais favorável, com crescimento, emprego e expansão da renda, enquanto o mensalão colocava a questão ética no centro da campanha. Em 2022, Lula e Jair Bolsonaro transformaram a eleição em uma disputa de enorme polarização política, somada a temas como economia, pandemia, costumes, democracia e futuro institucional do país.
Agora, em 2026, a disputa combina continuidade ou mudança, custo de vida, emprego, endividamento altíssimo, situação fiscal, segurança, instituições e a própria fadiga com uma polarização que já atravessa ciclos eleitorais. São eleições completamente diferentes, mas a abstenção reaparece como um fenômeno transversal. O eleitor precisa encontrar uma razão para escolher e talvez também precise encontrar uma razão para comparecer.
Em 1992, James Carville popularizou na campanha de Bill Clinton a frase “It’s the economy, stupid.” — “É a economia, estúpido.” Era um lembrete para manter no centro da campanha aquilo que afetava diretamente a vida dos eleitores: a recessão americana.
A lição continua atual no Brasil de 2026. Afinal, o eleitor pode discutir ideologia, costumes, instituições e política externa, mas também paga supermercado, aluguel, financiamento e conta de luz. A economia entra na urna porque entra antes na casa. Só que existe uma pergunta anterior às promessas econômicas: o eleitor acredita em quem está fazendo a promessa?
Ed Koch, prefeito de Nova York entre 1978 e 1989, tinha uma pergunta que se tornou sua marca: “How am I doing?” — “Como estou indo?”. Quando ainda era congressista, percebeu que as pessoas não paravam para ouvi-lo quando dizia quem era. Passou então a perguntar o que elas achavam de seu trabalho. Funcionou. Koch não pedia apenas o voto, pedia avaliação. É uma diferença importante entre pedir confiança e se colocar à prova, e é justamente aí que proposta e caráter se encontram.
O eleitor pode gostar de uma proposta e não confiar em quem promete executá-la. No fim, a escolha não depende apenas do que o candidato promete, mas também de quem ele demonstra ser. Proposta mostra o que pretende fazer; caráter ajuda a decidir se merece confiança. A velha máxima: “Se você está em um buraco, pare de cavar”, frequentemente associada ao britânico Denis Healey, resume essa escolha, pois quando uma estratégia não funciona, insistir nela não é necessariamente coerência.
É assim que o voto pode funcionar. Nem sempre o eleitor está escolhendo o candidato que mais ama; às vezes está escolhendo aquele que acredita representar uma saída e, em outras situações, pode simplesmente decidir não escolher. É aqui que os 33,4 milhões de ausentes ganham significado. Não é possível dizer que todos estão decepcionados com a política, mas também seria precipitado dizer que todos estão apenas impossibilitados de votar. Uma parte desse eleitorado pode estar dizendo, silenciosamente, que nenhuma das opções a convenceu a sair de casa.
Há ainda uma coincidência que merece atenção: enquanto milhões de brasileiros não foram às urnas, os principais candidatos também estiveram ausentes de alguns debates importantes. Não há relação causal comprovada entre os fenômenos, mas a imagem é simbólica. O debate é um dos poucos momentos em que o candidato precisa responder sob pressão, defender seu passado e explicar o futuro. É onde proposta e caráter ficam mais expostos. O TSE pode estimular a participação, mas não pode fabricar confiança. Essa tarefa é dos candidatos.
Eles precisam dizer quem são, o que pretendem fazer, mostrar o que fizeram, aceitar ser questionados e explicar por que merecem mais quatro anos ou por que merecem a primeira oportunidade.
Ed Koch perguntava: “Como estou indo?”. Carville lembrava: “É a economia.” A velha lei do buraco ensina: se não está funcionando, pare de cavar.
Talvez a política brasileira precise juntar as três lições, porque o problema não é apenas que 33,4 milhões de brasileiros faltaram à urna. É descobrir o que será preciso fazer para que eles tenham uma razão para voltar. E essa razão não se decreta. Conquista-se.
*Lenny Leone é jornalista
