Foram 17 ‘visitas’ da sócia do “Careca do INSS” a Wellington Dias e outras 16 a Alexandre Padilha. Enquanto o ministro do STF André Mendonça autorizava a Polícia Federal a aprofundar investigações sobre tráfico de influência envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e sua amiga lobista Roberta Luchsinger, os registros de acesso a órgãos federais revelam um padrão de circulação privilegiada e pouco transparente. Levantamento divulgado pelo Estadão, com base na Lei de Acesso à Informação, mostra que, entre o início do terceiro mandato de Lula e abril de 2024, Luchsinger realizou 42 visitas a órgãos do governo federal — 41 delas sem qualquer registro nas agendas oficiais dos agentes públicos, em flagrante desrespeito à legislação que exige publicidade desses encontros.
Não se trata de meras “cortesias”. Em pelo menos duas ocasiões, a lobista levou ao Palácio do Planalto e ao gabinete do ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, o então sócio de Lulinha, Fernando Bittar. Os encontros passaram ao largo das agendas oficiais. Em abril de 2024, os dois passaram pela catraca privativa do ministério, permaneceram cerca de 50 minutos e, segundo a pasta, discutiram “propostas sobre sistemas integrados”. A pasta nega desdobramentos administrativos. O gabinete de Wellington Dias foi o destino favorito: 17 visitas. Em 9 de março de 2023, Luchsinger chegou sozinha e presenteou o ministro com uma caixa de bombons suíços Sprüngli e uma edição de colecionador autografada de O Alquimista, de Paulo Coelho. O cerimonial registrou o momento em fotos, mas a agenda oficial, não.
Quatro dessas visitas contaram com a presença de Efrain Saavedra, gerente comercial da Duosystem, empresa cujo sistema a lobista tentava emplacar no Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Cinco dias após uma visita em 30 de março de 2023, o ministério firmou contrato de R$31 milhões com outra cliente dela, a 3STRUCTURE IT, de Cleber Ribas de Oliveira — empresário com quem a PF já identificou relação comercial com Luchsinger e que figura em investigações ligadas a Lulinha na Dataprev.
No Ministério da Saúde, o cenário se repete. Luchsinger fez 16 visitas não oficiais e apenas uma registrada. Nesta, em outubro de 2023, levou executivos da Duosystem para apresentar software de gestão de leitos à Secretaria de Atenção Primária. Fora da agenda, reuniu-se com o então secretário-executivo Swedenberger Barbosa (“Berge”) na companhia de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, preso na Operação Sem Desconto. O assunto: comercialização de medicamentos à base de canabidiol pela World Cannabis.
A PF apura se Lulinha interveio para facilitar autorizações governamentais nessa área e se valores pagos a Luchsinger (sua empresa RL Consultoria recebeu R$1,5 milhão do “Careca”) tiveram o filho do presidente como beneficiário. Em conversas apreendidas, o empresário ordena repasse de R$300 mil a ela “para o filho do rapaz” — possível referência a Lulinha, segundo os investigadores.
Outro cliente frequente: Sergio Roberto Bringel, do Grupo Bringel. Luchsinger o levou três vezes ao Planalto (incluindo o gabinete de Alexandre Padilha) e à Saúde. Desde 2023, empresas do grupo firmaram R$ 7,8 milhões em contratos na pasta, com destaque para R$ 3 milhões com o Grupo Hospitalar Conceição. No BNDES, em julho de 2023, ela apareceu no gabinete de Aloizio Mercadante acompanhando a Unigel em discussão sobre hidrogênio verde — projeto que não avançou. Apresentou-se como “namorada” do diretor de relações governamentais e “nora” do presidente do conselho da companhia. A Unigel desmente parentesco e qualquer contrato com ela. As demais empresas preferiram o silêncio.
O governo, pela Secom, afirma que os encontros no Planalto “não produziram qualquer desdobramento administrativo, contratual ou regulatório”. As defesas de Luchsinger e de Lulinha reforçam a versão de atividade profissional regular e ausência de pagamentos ao filho do presidente. Bittar não quis falar. O padrão, porém, é claro: acesso privilegiado, ausência de registro oficial, presentes simbólicos, presença de sócios e clientes com interesses concretos em contratos e regulações, e investigações da PF — agora com aval de André Mendonça — apontando para possível uso da proximidade com a família presidencial para abrir portas.
Em um governo que prega combate às “elites”, a circulação silenciosa de uma lobista amiga do filho do presidente por ministérios e bancos públicos, quase sempre fora da agenda, levanta questionamentos sobre o “lado de fora da agenda” como corredor de influência no terceiro mandato de Lula.
Diário do Poder