Recebi sua carta. Alegrou-me saber que você está melhor aí. Aqui não dava mais para você ficar depois de ter dito que as nulidades triunfavam, a desonra prosperava, a injustiça crescia e o poder dos maus agigantava-se. Não porque não fosse verdade, mas porque você disse que isso levava a desanimar da virtude, rir-se da honra e ter vergonha de ser honesto, como se virtude, honra, justiça e honestidade valessem alguma coisa.
Sua observação antecedente era prova de que esses conceitos tinham perdido sua importância e você não queria aceitar isso. Mas você é assim mesmo. Lembro da confusão que você criou com o Osvaldo por causa da campanha da vacinação. Isso além de o terem acusado de mandar queimar os documentos referentes à escravidão. Nem sei como você se dava bem com o Joaquim.
Admira-me que você, homem culto que é, advogado, jornalista, diplomata, filólogo, escritor, tradutor e, especialmente, político, não tenha atentado para o fato de que a cultura de cada povo tem origem em sua história. Você lembra da Carta do Pero Vaz? Deve lembrar, porque a Academia que você fundou publicou a missiva que ele mandou para o Manuel. Ele mesmo contou que chegaram e se apossaram. Não descobriram nada. Tomaram mesmo. E avisou: o que se plantar, dá. E plantou logo um pé de bajulação, tráfico de influência e corrupção: encerrou a carta com salamaleques, pedindo para Manuel soltar o Osório, amado genro do missivista, que – imagine você! -, por causa de um simples assalto à mão armada, estava cumprindo pena de degredo. E pasme: na paradisíaca ilha de São Tomé!
Como é que você queria que as nulidades não triunfassem, a desonra não prosperasse, a injustiça não crescesse e o poder dos maus não se agigantasse? Como isso seria possível se a impunidade foi plantada em solo fértil?
Frutificou tanto que não há mais sequer resquícios daqueles pruridos que o atormentavam. Já é fato inconteste que o exercício do poder pode extrapolar todos os escrúpulos. Um conceito se sobrepõe ao de terra do futebol e do carnaval: é o da corrupção. A Matemática terá de descobrir um processo mais acelerado do que a progressão geométrica para aferir a velocidade e a quantidade com que esse fenômeno é incrementado.
É um fenômeno de tal sucesso que a falta de virtudes, de honra ou de honestidade já não é motivo de vergonha. Dá até status. Leva ao ápice. Colocou no comando do País o que há de melhor. Demorou um tempo, mas o projeto do Poder Total foi bem sucedido e em pouco tempo mostrou sua eficácia destrutiva. Acabou-se o tempo do improviso das quadrilhas juninas. Emergiu uma organização de profissionais. Você precisa ver quando os líderes se encontram. Ficam bem na foto. Não têm defeito. Por modéstia não usam os ternos zebrinos, mas propiciam cenas inusitadas de hilária estupefação. Lindo de ver. Soube que o Charles, lá em Colombey-les-deux-Églises, entrou em êxtase ao ver uma dessas cenas na web. Curtiu, comentou e compartilhou: “- Je savais! N’est pas un pays sérieux!”
Só quem não consegue vê-los é o Diógenes. Nem quando lhes aponta aquela lanterna ridícula e inútil, nem mesmo com o farol de milha com que a adaptou.
Portanto, amigo, se você foi embora porque tinha vergonha de ser honesto, pode voltar. Suas proféticas afirmações foram um verdadeiro estímulo para um grupo de filantropos, com novo referencial moral: o Pode Tudo. Seu líder é a mais expressiva e irrefutável referência de honestidade. Ele mesmo assim se proclama. Sem vergonha! Criou até uma gradação para a honestidade. Do mais para o menos. Ele é o mais. Até do que os Chicos, o portenho, o dos bichinhos e o do nosso lar. Seus amigos, espécimes emblemáticas dos novos parâmetros morais, têm demonstrado generosidade e gratidão nunca antes vista nem nos domínios de Sherwood.
Acredite se quiser, mas eles doaram para a Fazenda – a mesma que você dirigiu – alguns milhões dos bilhões que auferiram com o suor de seu trabalho em máquinas de lavar dinheiro, com dedicação de fazer inveja para qualquer dona de casa. Tarefa penosa porque a sujeira é de petróleo, cimento, material hospitalar, lanche escolar e lama. Muita lama. Grande parte estava tão suja que precisou ser lavada em outros países, onde honestos da mesma laia dispuseram-se a colaborar. A honestidade em pessoa tratou de providenciar financiamento bancário para construir lavanderias no estrangeiro para que o sujo ficasse lá e a grana voltasse limpa para cá. Esses belos exemplos sensibilizaram empresários a doar fortunas para recompensar tamanha honestidade. São doações tão desinteressadas e com tanta reserva que muitas são depositadas fora do país. A humildade dos destinatários dessas benemerências os leva a negar que as receberam ou que as contas em que foram depositadas lhes pertençam.
É fato que Stanislaw contribuiu para essa evolução ao conclamar que se restaurasse a moralidade ou que se locupletassem todos. É tanta gente que nem a Morgiana, que salvou o Ali, poderia fazer alguma coisa, agora. Faltariam jarros e azeite para acomodar e cozinhar os legionários do novo conceito de honestidade.
Tenho outros argumentos para convencê-lo a voltar, mas os deixarei para depois, se necessário. Só não se iluda com as instituições a que você estava vinculado. O Miguel tinha razão. Perderam sua dignidade. Foram reduzidas a vitrine de vaidades, eficientes no tráfico de influência e captação de clientela.
O Aurélio me disse que trabalhou em sua Casa, em Botafogo. Soube que fez ali um belo trabalho. Manda um abraço para você.
Quanto à sua sobrinha, a Marina, só a vejo nas redes sociais.
Aguardarei suas notícias.
Carlos Nina é advogado







