Quando a Ajuda Esquece Seu Propósito

                                                                                                                                                                    David Gertner

A solidariedade é uma das maiores virtudes humanas. Mas, quando perde de vista seu verdadeiro objetivo, pode produzir exatamente o contrário do que pretendia alcançar.

É difícil encontrar alguém que seja contra ajudar quem precisa. A solidariedade está entre as mais nobres expressões da condição humana. É ela que sustenta famílias em momentos de crise, mobiliza comunidades diante de tragédias e inspira sociedades a proteger aqueles que, por diferentes razões, perderam temporariamente a capacidade de seguir adiante sozinhos.

Talvez por isso façamos tão poucas perguntas sobre ela. A principal é desconcertante em sua simplicidade: toda ajuda realmente ajuda? Boas intenções, por si sós, não garantem bons resultados. Entre aquilo que pretendemos fazer e aquilo que efetivamente acontece existe um elemento frequentemente negligenciado: a maneira como as pessoas respondem aos incentivos que criamos.

Economistas costumam ilustrar esse fenômeno por meio do chamado Efeito Cobra. Segundo uma história amplamente difundida, durante o domínio britânico na Índia foi oferecida uma recompensa por cada cobra venenosa morta. A intenção era reduzir sua população. O incentivo, porém, levou algumas pessoas a criar cobras apenas para abatê-las e receber o pagamento. Quando o programa foi encerrado, os animais foram soltos, e o problema tornou-se ainda maior. Independentemente da precisão histórica do episódio, a expressão permaneceu porque descreve um fenômeno recorrente: incentivos mal concebidos frequentemente produzem consequências opostas às desejadas.

Essa lógica está longe de se restringir à economia. Ela aparece sempre que avaliamos uma ideia apenas pela nobreza de sua intenção, sem considerar os comportamentos que ela incentiva. Pais que removem todos os obstáculos do caminho dos filhos podem, sem perceber, privá-los da oportunidade de desenvolver autonomia e resiliência. Empresas que eliminam sistematicamente a responsabilidade individual tendem a sufocar a iniciativa. Programas sociais concebidos para enfrentar dificuldades temporárias podem fracassar quando deixam de construir caminhos para que seus beneficiários um dia não precisem mais deles.

O mesmo princípio vale na direção oposta. Subsídios permanentes a empresas, incentivos fiscais mal desenhados, protecionismos excessivos e privilégios corporativos também podem criar dependências difíceis de desfazer. O problema não está em quem recebe a ajuda, mas na forma como ela altera escolhas, expectativas e comportamentos. Nada disso diminui a importância da assistência. Há momentos em que ela é indispensável e representa uma obrigação moral de qualquer sociedade civilizada. O erro não está em ajudar. Está em esquecer por que ajudamos.

A finalidade da solidariedade nunca foi administrar a dependência. Sempre foi restaurar a autonomia. Essa talvez seja uma das mais discretas contradições humanas. Com frequência confundimos compaixão com tutela, proteção com substituição e cuidado com controle. Fazemos isso quase sempre movidos pelas melhores intenções.

Talvez exista uma pergunta capaz de orientar qualquer forma de ajuda, seja ela pessoal, institucional ou governamental: ela está ampliando a liberdade de quem a recebe ou tornando essa ajuda cada vez mais indispensável? A resposta revela muito mais do que a eficácia de uma política pública, de um programa social ou de uma decisão familiar.

Autonomia não é o oposto da solidariedade. É o seu destino.

*David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor universitário aposentado. Autor de IA e Eu, disponível na Amazon, e de dezenas de ensaios sobre sociedade, comportamento e política. 

 

 

 

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