Sem voltar para casa há 04 meses, o médico infectologista Luiz Francisco D’Elia Zanella, atua na rede pública e particular do estado de São Paulo. Para ele, a covid-19 tem sido uma doença cruel, pela velocidade que atinge diversas pessoas, e como tem mexido com o comportamento da sociedade.
“Olhando e sentindo tudo isso, a gente fica apreensiva e com dúvidas, de quando verá seus familiares. Na semana passada eu dei a notícia de uma senhora que morreu, o neto foi receber a informação, na semana anterior ele tinha enterrado o pai e a tia por causa da covid-19. Muita tristeza. Uma avalanche na sua vida, carregando tudo de uma vez, que também acabam lhe fragilizando, diante de tanto sofrimento, comentou Luiz Zanella
O termo herói, para o infectologista, eleva a pressão aos profissionais de saúde, os afastando da figura do ser humano.
“A figura do herói invencível, sempre disponível, não existe. Não há herói. Somos profissionais capacitados por anos de estudo, e por trás tem um ser humano que atua, graças à capacitação. E que também tem seus familiares em casa, com medo de adoecer. É o profissional de saúde que está de frente com o inimigo. Mas, quando nos colocam como heróis, a figura humana se afasta da gente”, Luiz Francisco D’Elia Zanella, médico infectologista
Médico também tem medo
A distância da família mostra que os profissionais de saúde, mesmo atuando com base em estudos e na ciência, também estão com medo da pandemia, sem excluir especialidade, desde enfermeiros e técnicos até médicos, que podem se constituir em vítimas da doença. Mesmo diante dos riscos, todos se unem em defesa da vida dos seus irmãos.
“A gente se pergunta como estão nossos familiares, nossos amigos. É um sofrimento. Há cuidado de não expor os nossos familiares, principalmente daqueles mais velhos com histórico de doenças. Meus pais são hipertensos, minha avó é hipertensa. Você não poder vê-los, abraçá-los, é muito difícil. Fico angustiado, sem saber o que está acontecendo”, comentou Zanella. O isolamento social é defendido pelo infectologista, também pede um governo que encare a ciência como prioridade no país e tenha uma atenção e zelo pela população com políticas efetivas de saúde e transparência.
“Essa afrouxada que alguns estão dando agora, vai ser visto em duas semanas, os hospitais estão cheios sim. Não é o momento para saírem do isolamento. As pessoas têm de entender isso. Não é a hora de colocar família e amigos em risco. Temos de estar preparados. Imagina os colegas profissionais de Manaus, com a situação que estão vivenciando lá. Com certeza vão precisar de apoio psicológico e da sociedade. A ciência deveria ser prioridade para o governo do nosso país e mais precisamente na atual realidade, completou o infectologista.
“Pânico tomou conta do hospital”
Natural da Bahia, o infectologista Ícaro Santos Oliveira conta que o preparo psicológico é primordial para atender pacientes infectados, passar tranquilidade aos familiares, e acalmar colegas profissionais de saúde que estão lidando com o medo e com a distância de suas famílias.
“É uma doença que gera diversas perguntas. Há momentos de muita pressão para lidar com isso, pois é tudo novo para gente. Apesar da angústia, temos de manter o equilíbrio para nos mostrarmos tranquilos. Estamos lidando com um invisível. A nova geração da medicina nunca atuou com uma pandemia dessa proporção”, disse o infectologista ao UOL.
O pânico tomou conta do hospital. A ansiedade é grande a fragilidade é enorme por causa das incertezas. Não sabemos quando isso vai acabar. Não temos nada a respeito do tratamento. Tenho de lidar com essa angústia também. É ruim, ter de andar pelo hospital e ver colegas profissionais chorando por estarem longe de suas famílias, por receio, por medo disse, Ícaro Santos Oliveira, médico infectologista
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