Ministro Gilmar Mendes se credencia cronista esportivo para defender a CBF e seus interesses

                                                                          *Por Emílio Kerber Filho

O Brasil foi eliminado da Copa de 2026 no domingo (5), derrotado pela Noruega por 2 a 1. Luto nacional. E, enquanto o torcedor ainda engolia o choro, um personagem inesperado entrou em campo nas redes sociais para consolar a nação: o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Em publicação no X, Gilmar agradeceu à Seleção, defendeu a permanência do técnico Carlo Ancelotti — que, segundo ele, “dá solidez a esse recomeço” — e decretou que, “rumo a 2030, começa um novo ciclo”. Faltou só apitar o próximo amistoso. Ah, e homenageou Neymar. Comovente. Um ministro do Supremo que, em tese, só deveria falar por meio de decisões judiciais, virou comentarista esportivo — e de graça.

Mas de onde vem tanto amor pela camisa amarela? A resposta talvez esteja menos no coração e mais na planilha. O IDP — instituição de ensino fundada por Gilmar Mendes, que está entre os proprietários — mantém contrato de parceria com a CBF desde 2023, por meio da CBF Academy. O diretor-geral do instituto é Francisco Mendes, filho do ministro e hoje um dos nomes mais influentes dos bastidores do futebol brasileiro. E não para por aí: Samir Xaud, atual presidente da CBF, foi aluno do IDP em 2025. Uma bela tabelinha.

Segundo o colunista Lauro Jardim, de O Globo, Francisco Mendes teria confidenciado a interlocutores, no fórum jurídico de Lisboa (o simpático “Gilmarpalooza”), que “quem convocou o Neymar fui eu”. A frase é atribuída, e ele nunca a confirmou publicamente. Mas ajuda a entender por que Neymar, mesmo entre lesões, nunca pareceu correr risco real de ficar de fora. Nem a direita deixou passar. O senador Sergio Moro resumiu: “CBF controlada pelo Gilmar não tem como dar certo”.

Procurado em outras ocasiões, Gilmar Mendes nega qualquer conflito de interesses e sustenta que as parcerias do IDP são legítimas. Nada foi julgado, nada foi condenado. Como sempre. Fica a lição da Copa de 2026: o Brasil até perde dentro de campo. Mas tem gente que, fora dele, nunca sai de campo.

Emílio Kerber Filho

Escritor e Estrategista Político. Criador do método Arquitetura Eleitoral:

 

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *