”A encíclica de Francisco valoriza os movimentos de consumidores”

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  “É uma encíclica importante, porque contesta a concepção antropológica do super-homem, senhor e dominador da natureza, e nos fala do homem em relação, com Deus, com os outros, com as gerações presentes e futuras, com as outras espécies vivas.” E é um documento que “valoriza os movimentos de consumidores”. É assim que Leonardo Becchetti, professor de economia política da Universidade de Roma Tor Vergata, um dos animadores da rede Next, comenta a encíclica Laudato si’, do Papa Francisco.

A reportagem é de Andrea Tornielli.

            Becchetti explica ao Vatican Insider que a importância do novo texto papal está na concepção antropológica do homem “em relação”: “Para viver bem, devemos explorar e valorizar todas essas relações”. O economista considera que Francisco falou de modo claro sobre os riscos associados à tecnocracia e a uma certa finança, contestando “a idolatria que leva a uma concepção mágica do mercado, que, por si só, resolveria os problemas apenas com a sua eficiência, sem a necessidade de igualdade e fraternidade”. Ao contrário, acrescenta o pesquisador, “sabemos que não é assim”, dado que o sistema está levando à insustentabilidade “social e ambiental”.

Além disso, o papa denunciou o fato de que, com a crise, “os bancos se salvaram com o dinheiro dos cidadãos” e de que as “dívidas públicas aumentaram” por causa desses resgates, embora isso – especifica Becchetti – tenha ocorrido mais em nível internacional e menos na Itália.

O economista também comentou o parágrafo 206 da encíclica, que diz: “206. Uma mudança nos estilos de vida poderia chegar a exercer uma pressão salutar sobre quantos detêm o poder político, econômico e social. Verifica-se isso quando os movimentos de consumidores conseguem que se deixe de adquirir determinados produtos e assim se tornam eficazes na mudança do comportamento das empresas, forçando-as a reconsiderar o impacto ambiental e os modelos de produção. É um facto que, quando os hábitos da sociedade afetam os ganhos das empresas, estas se veem pressionadas a mudar a produção. Isso nos lembra da responsabilidade social dos consumidores. ‘Comprar é sempre um ato moral, além de econômico’. Por isso, hoje, ‘o tema da degradação ambiental põe em questão os comportamentos de cada um de nós'”.

Uma valorização, explica Becchetti, que não é nova, já que se encontrava tanto no Compêndio da Doutrina Social da Igreja, quanto na encíclica Caritas in veritate, de Bento XVI (citada por Francisco na Laudato si’). “Mas há uma novidade – diz o economista –, porque é a primeira vez que um papa sublinha o efeito que certos gestos podem ter, o seu valor político e as consequências no comportamento das empresas”.

Para o estudioso, pode-se “enfatizar ainda mais que essa ação não é apenas um boicote, mas também representa uma ação positiva e propositiva, para premiar as empresas mais sustentáveis: essa ação premiadora é a mais importante. É preciso evidenciar as boas práticas, como tentamos fazer com a rede Next, através da qual as empresas podem se autoavaliar em relação à sustentabilidade, e os cidadãos podem expressar as suas avaliações. E aprender a escolher no momento em que compram ou investem”.

Fonte – IHUSINOS

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