Quando o conflito de interesses deixou de ser escândalo

                                                                                                                                                            *David Gertner

Entre presidentes, tribunais, parlamentos e famílias políticas, o poder deixou de apenas governar — e passou também a multiplicar patrimônios, influência e acesso.

O conflito de interesses raramente começa com um crime. Na maioria das vezes, ele começa com um jantar. Um contrato para um parente. Uma consultoria improvável. Uma palestra milionária. Um escritório que prospera rápido demais perto demais do poder. Uma sociedade aberta discretamente em nome de familiares. Um patrimônio que cresce em velocidade incompatível com aquilo que seria esperado fora do círculo político.

E quase nunca acontece de uma vez. Ele se instala lentamente, até que um dia a sociedade percebe que aquilo que antes parecia moralmente inaceitável passou a ser tratado como simples normalidade administrativa.

Talvez uma das transformações mais silenciosas das democracias contemporâneas tenha sido exatamente esta: o conflito de interesses deixou de ser percebido como ameaça ética grave e passou a ser administrado como detalhe técnico, jurídico ou burocrático. Houve um tempo em que sociedades democráticas compreendiam intuitivamente que certas fronteiras precisavam existir. Quem exercia funções públicas relevantes deveria evitar situações nas quais poder político, acesso privilegiado, influência institucional e interesses privados se misturassem. Não apenas para impedir corrupção explícita, mas para preservar algo ainda mais importante: a confiança coletiva na imparcialidade das instituições.

A lógica era simples. O poder abre portas.
O acesso cria oportunidades. A informação produz vantagens.
E proximidade institucional frequentemente se transforma em patrimônio econômico. Por isso, durante décadas, democracias criaram mecanismos destinados a limitar a promiscuidade entre Estado e interesses privados. Mas, aos poucos, essas barreiras começaram a se dissolver. Primeiro vieram as exceções. Depois as racionalizações. Mais tarde consolidou-se uma cultura política na qual quase tudo passou a parecer aceitável desde que existisse alguma justificativa formal de legalidade.

E assim chegamos a um mundo em que famílias inteiras orbitam o poder e multiplicam patrimônios de maneira extraordinária sem que isso provoque mais do que alguns dias de indignação passageira.

Filhos de presidentes tornam-se empresários repentinamente bem-sucedidos. Genros convertem proximidade política em redes de influência econômica. Parentes de governantes aparecem ligados a negócios cujo crescimento seria difícil explicar apenas por mérito de mercado. Esposas, irmãos, cunhados e aliados próximos passam a ocupar posições estratégicas em empresas, fundos, escritórios, grupos financeiros ou estruturas públicas. Em muitos países, familiares de autoridades acumulam fortunas em velocidade muito superior à observada entre empresários, investidores ou profissionais comparáveis fora do círculo do poder. Isso acontece em democracias frágeis e também em democracias maduras. Acontece em regimes mais autoritários e em sistemas considerados exemplares.

Nos Estados Unidos, tornou-se recorrente o debate sobre parlamentares cujas famílias realizaram operações financeiras extraordinariamente lucrativas em setores diretamente afetados por decisões políticas e regulatórias tomadas pelo próprio Congresso. Em diversos países da América Latina, presidentes e seus círculos familiares passaram a ser associados a patrimônios incompatíveis com suas trajetórias profissionais anteriores. Em outras nações, magistrados e integrantes do alto Judiciário passaram a conviver de maneira cada vez mais íntima com grupos empresariais, políticos e ideológicos interessados em decisões de tribunais superiores.

O problema raramente aparece na forma clássica da corrupção grosseira. Ele se manifesta de maneira muito mais sofisticada — e talvez por isso mais perigosa. O poder deixa de gerar apenas autoridade institucional e passa também a produzir ecossistemas familiares de prosperidade acelerada. Talvez o mais inquietante seja o fato de que a sociedade começou a se acostumar com isso. A indignação pública dura pouco porque a repetição constante produz anestesia moral. O extraordinário transforma-se em rotina. O escândalo perde capacidade de escandalizar.

Mas democracias dependem precisamente da existência de limites invisíveis. Dependem da percepção de que aqueles encarregados de exercer funções públicas não utilizam o Estado como plataforma indireta de valorização patrimonial própria, familiar ou corporativa. Quando essa percepção desaparece, a confiança pública começa lentamente a apodrecer.

Porque o cidadão comum pode aceitar diferenças de talento, esforço ou sucesso. O que destrói a legitimidade institucional é a sensação de que existe uma aristocracia informal do acesso — um universo no qual proximidade ao poder produz oportunidades que jamais estariam disponíveis ao restante da sociedade. E talvez esse seja o maior risco contemporâneo. Não o fato de existirem conflitos de interesses. Eles sempre existiram. O verdadeiro perigo é que tenhamos começado a enxergá-los não mais como desvios morais, mas como parte natural do funcionamento do próprio sistema.

Porque uma democracia não começa a morrer apenas quando roubam seu dinheiro.Ela começa a morrer quando seus cidadãos passam a acreditar que o poder existe principalmente para enriquecer aqueles que já estão próximos dele.

*David Gertner, Ph.D. é escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, professor aposentado e autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David.

 

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