Na quinta-feira 02 de junho, a Assembleia Legislativa do Maranhão realizou sessão solene comemorativa ao dia da Comunidade Italiana no Maranhão. A proposta, apresentada pela deputada Helena Duailibe, foi aprovada por unanimidade e à sessão compareceram membros da comunidade italiana, em comitiva liderada pelo Cônsul Honorário da Itália no Maranhão, Francesco Cerrato.
A solenidade contou ainda com a presença do desembargador Gervásio Protásio dos Santos Júnior, representando o presidente do Tribunal de Justiça, em exercício, desembargador Ricardo Duailibe, o Procurador Geral de Justiça do Maranhão, Eduardo Hiluy Nicolau, a primeira dama, em exercício, do Estado do Maranhão, advogada Daniela Busa Velten Pereira, o presidente do Círculo d´Itália, dra. Mônica de Lucca, o fundador, decano e Diretor de Relações Institucionais do Círculo d´Itália, Mario Cella, o presidente do Comitato Dante Alighieri no Maranhão, advogada Isabella Pearce, e o senhor Luca Palmieri, representante do Comitê Nordeste.
Após a fala da deputada Helena Duailibe, justificando sua proposta, o cônsul honorário da Itália no Maranhão, Francesco Cerrato, proferiu discurso emocionado.
Discurso de Francesco Cerrato:
Início agradecendo ao Presidente da Casa, Deputado Othelino Neto, e à Deputada Helena Dualibe, que realizou a indicação desta homenagem no Dia da Comunidade Italiana no Maranhão. Através dos dois, saúdo toda a mesa e os demais presentes, e trago também as saudações do Consulado Geral da Itália em Recife, enviadas diretamente pela Cônsul Nicoletta Fioroni.
Não é por coincidência que hoje estamos aqui, numa casa democrática, o parlamento estadual, para lembrar e homenagear um dia muito importante da história da democracia na Itália: a Festa Nacional da República.
Com o referendo que aconteceu nos dias 2 e 3 de junho de 1946, o povo italiano escolheu a República como forma de estado e adotou instituições democráticas. E assim o 2 de junho ficou marcado como a Festa Nacional da República Italiana.
E aqui no Maranhão, esta mesma casa democrática já havia feito no ano de 2017 outro ato de reconhecimento e amizade com a população italiana que aqui vive, quando aprovou a Lei 10.656 e incluiu o dia 2 de junho como o Dia da Comunidade Italiana no Maranhão, inserindo no calendário oficial do estado esta simbólica e significativa data.
E é importante dizer que, tanto a homenagem de 2017 através da aprovação da lei, quanto a homenagem de hoje através dessa sessão solene, são atos cheios de importância e significado não apenas para a comunidade italiana no Maranhão, mas para todos os brasileiros que, direta ou indiretamente, apreciam e incorporam traços da cultura italiana /ou usufruem das realizações de imigrantes italianos ou seus descendentes no Brasil.
É necessário lembrar de como os imigrantes italianos ajudaram a construir um nova visão de Brasil no início do século XX: um Brasil que deixava para trás os horrores de um sistema escravocrata e se abria para uma economia forte, moderna e mundialmente competitiva, uma economia primeiramente baseada nas lavouras de café para onde os primeiros imigrantes italianos se destinavam no século XIX, e depois uma economia industrial nas primeiras décadas do século XX, transição esta que foi liderada especialmente pelos descendentes de italianos no sul e sudeste do país. Nessa época, mais se ouvia nas ruas de São Paulo o idioma italiano do que o idioma brasileiro tão forte era a presença dos imigrantes e seus descendentes.
Essa presença da cultura italiana sofreu à força um hiato no final da década de 30 quando o Brasil estava sob o chamado “Estado Novo” com forte viés nacionalista, que proibiu manifestações culturais de países estrangeiros no território brasileiro. E se em São Paulo muito se ouvia italiano no meio da rua, de repente falar italiano tornou-se proibido, ao ponto até de um time de futebol fundado por italianos, o Palmeiras, ter que mudar seu nome, e o hino da Itália ser proibido de tocar. É realmente muito significativo que hoje estamos aqui para celebrar a democracia e a liberdade.
Mas esse período foi um hiato, uma exceção frente ao amor e bom recebimento que o Brasil sempre demonstrou com os imigrantes italianos e a nossa cultura, inclusive fundindo diversos aspectos com a cultura brasileira.
E não apenas no sul e sudeste do Brasil a presença italiana foi forte e a fusão das culturas italiana e brasileira foi consolidada. Em todo o Brasil isso aconteceu e continua a acontecer, cada década trazendo uma nova razão para migrantes italianos escolherem o Brasil como novo lar.
Aqui no Maranhão, por exemplo, foi significativo o número de padres, freiras e voluntários cívicos italianos que chegaram em missão e por aqui ficaram nas décadas de 70 e 80. Eles dedicaram as suas vidas a um incomensurável trabalho humanitário em algumas das regiões mais pobres do Maranhão, por vezes sofrendo até perseguição política, e a suas persistências demonstram o amor pelo Brasil. Aqui conosco temos um exemplo vivo, o nosso honorário Mario Cella, que inclusive está agora representando as Obras Sociais de outro missionário italiano que veio e ficou no Maranhão: o Frei Antonio Maria Sinibaldi, que inclusive deu a sua vida salvando jovens maranhenses num acidente de naufrágio na Baía de São Marcos.
E eu, talvez represente a mais recente geração de imigrantes italianos no Brasil. Cheguei aqui em 2013, com a perspectiva de trabalho, de amor e de construir juntamente com a minha amada esposa Isabella, que na época era noiva, uma vida em solo brasileiro. E eu só tenho a agradecer pela acolhida que o Brasil e o Maranhão me deram. Nesses 9 anos que vivo aqui, absolutamente todas as vezes que me perguntam “De onde você é?” e eu respondo “Sou italiano”, recebo da outra pessoa um sorriso de volta. E hoje tenho a felicidade e a grande emoção de ter aqui presente nessa sala nosso filho Luigi, o mais novo representante da comunidade italo-brasileira no Maranhão e a nossa querida Senhora Esterina Lamberti Bonocore representando a história da comunidade italiana no Maranhão.
E quantas vezes eu ouvi aqui: “ah, eu quero aprender italiano”, “eu quero conhecer a Itália”, “quero estudar na Itália”, ou mesmo “Forza Azzurri” e “Obrigado, Roberto Baggio”.
E do outro lado não é diferente. Creio que seja um sentimento comum a todos os italianos residentes no Maranhão aquele de sentir-se bem acolhido e integrado. São Luís, o Maranhão e o Brasil são exemplos de integração entre os povos e isso deve ser motivo de grande orgulho para todos os brasileiros e brasileiras!
Imaginemos por um instante o que sentiram os italianos que decidiram deixar o próprio País no final do século XIX e nas grandes migrações da primeira e segunda guerra mundial, tempo em que se partia, muitas vezes, para não pisar nunca mais no solo da Itália, para nunca mais ver sua família e conhecidos que ficaram para trás…
Imaginemos o que sentiram esses italianos ao decidir deixar o próprio país num tempo em que os meios de transporte e, também, as vias de comunicação eram difíceis, e por isso se perdia qualquer tipo de contato com os parentes e amigos e existia somente uma forma de aliviar essa dor: transformar esta dor em força e empenho para contribuir para o desenvolvimento do Brasil. E a contribuição dos italianos é evidente em todos os setores: do comércio à indústria, do agronegócio aos serviços, da educação à inovação e tecnologia, e tantas missões de voluntários religiosos e lideranças cívicas para ajudar a combater a pobreza.
E hoje aqui em São Luís e no Maranhão temos uma presença forte dos italianos, tanto aqueles que são os próprios migrantes de hoje quanto aqueles que são descendentes dos migrantes do passado.
Além do Consulado honorário, que assumi em agosto de 2021, temos a associação cultural “Circolo Italia” que nasceu em 1981 tendo como fundadores alguns dos honorários membros da comunidade italiana aqui presentes, como o Mario Cella, Demetrio Saccomandi e a família Bonocore, e está agora sob a liderança enérgica, entusiasmada e extremamente competente da nossa Doutora Monica de Lucca.
E também, depois de muitos meses de brilhante trabalho coordenado pela nossa doutora Luisa Faldini, conseguimos recentemente alcançar um resultado histórico para a comunidade italiana no Maranhão com a fundação de uma unidade maranhense da mais alta instituição de promoção da língua e da cultura italiana no mundo: a Società Dante Alighieri, que agora possui como Presidente a doutora Isabella Pearce.
E ainda temos mais. Também com o objetivo de promover a cultura italiana e sua rica integração com a cultura brasileira, a nossa comunidade italiana do Maranhão conseguiu eleger pela primeira vez, após intenso esforço em eleições em todo o Nordeste, representantes maranhenses nos “Comites”, uma delegação muito relevante entre os italianos pelo mundo, sendo eles a vice-presidente adjunta Gabriela Bonocore e o diretor da Comissão da Cultura Luca Palmieri.
Enfim, somos uma comunidade presente, viva, ativa e dedicada a contribuir, através do nosso trabalho e das nossas iniciativas econômicas e culturais, para este tão belo e acolhedor país que hoje é a nossa casa.
Caríssimo presidente da Assembleia Othelino Neto, caríssima deputada Helena Dualibe, caríssimos demais deputados presentes… mais uma vez agradecemos por este momento especial, o qual ficará para sempre na memória da comunidade italiano do Maranhão.
Viva l´Italia, Viva il Brasile, Viva il Marahão.
Fonte: Assessoria Parlamentar