Escola Sem Partido já provoca demissões e transferências

“Enquanto professora, eu nunca tinha passado por uma situação como essa. Tenho certeza que tem a ver com o Escola Sem Partido”, afirmou a professora Sara Wagner York

                      O Projeto de Lei de número 867 que identifica o Programa Escola Sem Partido continua a ser apenas uma proposta legislativa; na realidade, desde 2015. Na última terça-feira, 11 de dezembro, a comissão especial da Câmara dos Deputados encerrou os trabalhos de análise da proposta sem votá-la. Isso significa que o projeto deve ser arquivado e posto em pauta somente na próxima legislatura. Contudo, de acordo com professores, mesmo sem se apresentar à sociedade enquanto legislação, o Escola Sem Partido já tem sido instrumento de coerção nas salas de aula por pais, alunos e diretores que o defendem.

É o que observou e sentiu na pele a professora Sara Wagner York, de 43 anos, que também é pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), uma das coordenadoras do Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE), avó, trabalhadora e mulher transsexual. Em abril deste ano, quando lecionava uma de suas primeiras aulas na Escola Municipal Miriam Alves Guimarães, em São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro, York mencionou o termo “lesbianidade”. A circunstância foi o suficiente para três alunas empreenderem reclamações e um abaixo-assinado contra a professora por “apologia à lesbianidade”, inexistente no ordenamento jurídico brasileiro. Sara conta que algumas mães cogitaram abrir um boletim na ocorrência com a mesma intenção, mas desistiram.

O caso ocorreu em um dos momentos de maior veiculação, por parte de setores conservadores, de notícias falsas acerca da existência do “kit gay”, representada pelo então deputado Jair Bolsonaro, do Partido Social Liberal (PSL). “Enquanto professora, eu nunca tinha passado por uma situação como essa. Sou pesquisadora do CNPq, trabalho com isso, tenho certeza que tem a ver com o Escola Sem Partido”, afirmou.

“Foi em função da instituição de um pânico moral criada em torno de pessoas que são supostas ameaças à ideia de escola puritana, conservadora, evangélica, cristã. Mesmo sendo uma escola pública a direção se coloca como evangélica, não fazem questão nenhuma de se colocarem como laicos”, diz.

York, que é professora há tanto tempo e por isso diz que o é “desde sempre”, não foi desligada da rede municipal, mas transferida de unidade. Após as reclamações, o Conselho Escolar responsável pela instituição de ensino as redirecionou à direção da escola. Logo após, a Secretaria de Educação da Prefeitura Municipal de São Pedro da Aldeia remanejou York para outra unidade. Já transferida, a professora descobriu que as alunas responsáveis pela acusação de “apologia à lesbianidade” “são filhas do presidente do conselho escolar e que, por um acaso, é um pastor evangélico”.

Em São Pedro da Aldeia, a 142 quilômetros de distância do Rio de Janeiro, a Marinha do Brasil mantém a Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia (BAeNSPA), onde também se encontra o Museu da Aviação Naval. Lá, 80,60% do eleitorado votou em Bolsonaro na última eleição presidencial do País. Para a professora, isso é simbólico. “Sou uma professora que trabalha na terra que elege Eduardo Cunha, Bolsonaro, Silas Malafaia”.  É uma “terra de coronéis”, diz.   Segundo York, o que a tranquilizou foram as manifestações de apoio dos outros alunos, “porque eu achei que tinha sido uma sala inteira”. Até então, estava “muito difícil pensar qualquer possibilidade de retorno à sala de aula”.

Fonte: Yahoo Noticias

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