Raphael segura Raphael, um dos dois bebês batizados com seu nome
A empresária Deise Nascimento Pim, 27, levou um susto quando soube que havia um homem na equipe de obstetrizes que estava prestes a contratar para o nascimento de Julia, mas hoje elogia o trabalho de Raphael Marques de Almeida Rosa da Cruz, 26, um dos 12 homens formados desde 2008 pelo curso de obstetrícia da USP (Universidade de São Paulo).
A profissão está tão ligada à imagem de mulher que, ao buscar pela palavra obstetriz no dicionário Houaiss, o substantivo feminino é indicado como sinônimo de parteira, também no feminino. Nunca tinha visto um obstetriz homem. Fiquei com um pouco de receio pelo meu marido, como se sentiria, o que pensaria. Mas ele passa muita confiança, é muito profissional, foi o melhor parteiro.”
Deise conta que decidiu fazer o parto em casa, e os alarmes falsos aumentavam sua ansiedade. Nessas ocasiões, Cruz conversava e ajudava a acalmá-la. “Um dia, meu marido chegou e ele estava fazendo massagem na minha barriga. Ele foi essencial, deu paz.”
Amanda Oliveira Santos da Silva, 17, conheceu o obstetriz na noite de 13 de junho, quando ela chegou ao Hospital Ipiranga com fortes contrações. Após os primeiros exames, a estudante decidiu fazer seu trabalho de parto na banheira e, à 1h39 do dia 14, Isabelly chegou ao mundo pelas mãos do parteiro.
Arquivo pessoal
Amanda foi acompanhada por um parteiro durante seu trabalho de parto de Isabelly. “Estava com muita dor e ele conversava comigo e com minha mãe tentando nos tranquilizar. Ele é muito atencioso”
Universo feminino
Filho de um engenheiro e de uma psicóloga, Cruz queria desde criança ser “médico de mulher”. Tentou ingressar na medicina, mas não foi aprovado. Já aluno de obstetrícia, continuou prestando vestibular e passou na UFC (Universidade Federal do Ceará), mas decidiu permanecer na carreira de parteiro e não se arrepende.
“O curso de obstetrícia favorece o pensamento integral, a visão da mulher como um todo, na família, na sociedade, e era essa atenção que eu queria dar desde pequeno”, justifica.
Único rapaz da turma que se formou em 2013, ele diz que aprendeu a lidar com a desconfiança que as mulheres têm de serem atendidas por homens.
“As mulheres, em um primeiro momento, veem com outros olhos. ‘Um homem vai me ver pelada, vai encostar em mim’. Os maridos também, dependendo do caso, não se sentem muito à vontade, então desde a faculdade eu aprendi a contornar isso. E contornar isso é mostrar respeito”, afirma.
Integrar o pai é outro passo importante nesse processo, segundo o obstetriz. “A sociedade em que estamos incluídos é mais machista, tira esse momento do pai. O pai tem direito de se emocionar, é o nascimento do filho dele também”, defende.
Fonte: UOL Noticias

