LUIZ PHELIPE ANDRÉS

Lino Raposo Moreira, PhD Economista

Da Academia Maranhense de Letras

Morreu Luiz Phelipe Andrès na cidade que tem justamente seu nome, Luís, e pela qual fez mais do que se imaginaria que pudesse ser feito. Fez por amor à Ouro Preto à Beiramar, como ele às ele vezes chamava a amada cidade São Luís. Deveria ser assim, pois não foi a previsão de um amigo, um tipo meio excêntrico, aí pelos anos setenta do século passado, sobre seu encontro com uma cidade, onde viveria até o fim e sua vida, que o fez ficar atento ao chamado dela? Phelipe, continuou o amigo, não escolheria a cidade; era precisamente o contrário, a cidade o escolheria. Dito e feito.

Ele estava no Rio de Janeiro, onde trabalhava em revistas de circulação nacional. Não estava, porém, satisfeito com a vida. Como mineiro de nascimento, tinha a nostalgia do mar, dos barcos e, sobretudo, da beleza das velas coloridas das embarcações, que lhe encantaram mais tarde quando aqui aportou. Ainda no Rio, encontrou amigos maranhenses. Estes, para a sorte de São Luís e dele, lhe falaram de Miguel Nunes, àquela altura presidente da estatal CEMAR. Falaram igualmente da sensibilidade de Miguel com o patrimônio histórico de São Luís. Os dois encontraram-se e fizeram uma amizade duradoura, até a morte de Miguel.

Após algumas conversas, recebeu convite do novo amigo para vir a São Luís a fim de trabalhar na Cemar. Aqui acabou por conhecer o patrimônio histórico não só de São Luís, mas também de boa parte do patrimônio histórico do Estado. Do de São Luís, tornou-se o maior conhecedor e, por isso, dirigente do programa de revitalização do Centro Histórico. Anos mais tarde, criou o Estaleiro-Escola do Maranhão, destinado a preservar as técnicas tradicionais de construção naval do vasto litoral maranhense, experiência única no Brasil. Entre os admiradores da obra de Phelipe está o navegador Amir Klink. Ele veio ao Maranhão diversas vezes com a intenção de dar apoio a seu amigo, quando o governo atual dava sinais de querer fechar o Estaleiro.

Tornou-se membro do conselho nacional do Iphan e deu diversos pareceres, todos aprovados por unanimidade, sobre o registro como bens do Patrimônio Nacional, da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, do terreiro da Mãe Menininha do Gantois e da cidade histórica de São Luís do Paraitinga, em São Paulo.

O sucesso de Phelipe deveu-se a sua intensa e apaixonada dedicação ao trabalho, sua tenacidade e também à maneira de se relacionar com as pessoas. No meu discurso de recepção a ele, quando de sua posse na Academia Maranhense de Letras, fiz uma paráfrase da letra de uma canção de Paulinho da Viola, “Argumento”, com o objetivo de dizer que ele fazia “como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro, leva o barco devagar”. Era verdade. Cauteloso, gentil e educado com todos, capaz de ouvir e deixar as pessoas falarem, em especial as humildes, sem ares de sabichão, ele cativava a todos. Foi assim que ele alcançou o melhor de suas realizações.

Recebeu o apoio de todas as administrações do Maranhão, de meados dos 70 setenta até o início da atual. Administrou com absoluta integridade moral. Mas aí veio o governo digno. Por contraste e para bem avaliarmos o nível de baixeza usada na perseguição contra ele é suficiente dizer que no Estaleiro-Escola faltava tudo, até papel higiênico dos banheiros. Havia dinheiro para tudo, menos para a Escola. Até a gratificação de chefia dele e as de vários de seus auxiliares foram reduzidas arbitrariamente a níveis baixíssimos. Um dos pirralhos do grupo de degola da Secretaria de Ciência Tecnologia, resolveu tratá-lo como a um ignorante qualquer e tentou lhe passar uma repreensão. Não conseguiu. A última indignidade foi o assédio moral-eleitoral sofrido por ele para dar seu voto a um candidato na última eleição na Academia. Debilitado como estava, foi pressionado até o fim. Por isso, acho estranho um governo perseguir tanto uma pessoa e depois prestar a ela homenagens.

Perguntam-me o motivo das perseguições. É o ressentimento. Se uma pessoa como Phelipe fazia coisas boas para a sociedade, honestamente, modestamente, os parasitas se sentiam ofendidos. Caro leitor, siga o conselho de Nelson Rodrigues, esconda suas virtudes, finja ser uma nulidade. Phelipe não fingiu e, mais ainda, agiu com naturalidade. Despertou ódios eternos.

Na recente visita de Lula ao Maranhão, foi programada de última hora uma visita do ex-presidente ao Estaleiro. Foi uma correria. Apareceram como do nada tudo necessário ao funcionamento da Escola: papel higiênico, cadeiras para os alunos, ares condicionados nas salas, computadores, uma infinidade de coisas raramente vistas ali. Paredes foram pintadas, material de cantina apareceu. Quando Lula foi embora, tudo foi retirado. E ainda teve um que fez um discurso apontando aquilo tudo como obra do atual governo.

Comovente o traslado, em barcos, de seu corpo pelo pessoal do Estaleiro até a Beiramar, conforme seu desejo e daí ao crematório. Nunca vi em minha vida tanta serenidade ante a morte iminente como vi em Phelipe. Tranquilo, mas ainda pensando no Estaleiro-Escola e seu futuro. Agora as águas da baía recebem suas cinzas com tristeza e alegria.

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